02.08.07: O tira que invadiu a livraria

Conheça a história do herói Inspetor Tavares, que nunca achou uma editora que o quisesse, mas conseguiu cavar um lugarzinho na estante mais grã-fina da cidade

Jotabê Medeiros

É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um livro editado e distribuído pelo próprio autor entrar numa das modernas redes de livrarias de São Paulo. Mas às vezes, o zelador esquece a porteira aberta e um ou outro penetra invade.

Se o leitor passar esta semana pela portentosa Livraria da Vila da Alameda Lorena, nos Jardins (onde, no andar superior, um cafezinho custa R$ 2,50), vai encontrar na estante mais nobre, no térreo, um modesto livrinho policial em formato de bolso encarando tubarões da literatura mundial.

Trata-se de Inspetor Tavares – Cada Caso É um Caso, de Waldemar Neves (pseudônimo do escritor, ator, dramaturgo e cineasta Felipe Sant’Angelo, de 26 anos). Custa R$ 16. Lembra aquele caso do estudante que expôs, durante 2 meses, um quadro de sua autoria durante a 25.ª Bienal de São Paulo, em 2002, ao lado de Brodsky, Cruz-Diez, Carmela Gross, Carlos Fajardo.

Chama atenção o fato de uma edição de autor conseguir tal feito – em parte pela própria natureza das livrarias atuais, que chegam a cobrar das editoras para que um livro ocupe espaço nobre em suas preciosas estantes e vitrines.

E em que pé anda a famosa edição do autor? Grandes escritores do País, como João Cabral de Melo Neto, começaram na literatura dessa forma – João Cabral bancou do próprio bolso a primeira edição de Pedra de Sono, no Recife, em 1942. O mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke e o libanês (radicado em Santa Catarina) Salim Miguel só tardiamente foram abraçados pelas editoras.

Um dos destaques da poesia mineira atual, Ricardo Aleixo só publica à própria custa. “Organizei minha vida cotidiana a partir de uma premissa não capitalista e não consumista”, diz Aleixo. “Vivo com pouco, mas vivo bem”, afirma.

“A edição do autor é interessante por diferentes razões: você mesmo pode fazer, como um livro-objeto, a visualidade do seu livro; faz sem preocupação com as leis do mercado; também não precisa passar pelo crivo de um editor ou de padrinhos; e elimina o distribuidor”, lembra o poeta Chacal, que, a partir dos anos 1970, editou na raça a maior parte de sua obra.

O Inspetor Tavares, abrigado alguns metros atrás da nova e imponente pilha de Harry Potter and The Deathly Hallows, não quer sair dali tão cedo. A menos que o despejem. “Fui às livrarias com a cara e a coragem”, diz o escritor Felipe Sant’Angelo, que editou 150 exemplares de seu livro de estréia com o personagem Inspetor Tavares.

“Deixei o livro na livraria do Centro Cultural, na Mercearia São Pedro e na Livraria da Vila da Vila Madalena. Como foi parar nos Jardins eu não sei, mas fico feliz que alguém chegou até ele”, diz o autor.

04.09.06: Escritores desiludidos

Miguel Conde

Chegaram alguns e-mails aqui no caderno comentando a reportagem desse sábado sobre a ‘pilha de ilusões’. A matéria mostra como funciona nas editoras o processo de avaliação dos originais que chegam pelo correio, sem que ninguém solicite ou recomende. São de 15 a 30 originais por semana, por volta de mil por ano, mas, apesar das esperanças das pessoas que os enviam, esses textos quase nunca são publicados. Nos últimos anos, as editoras consultadas para a reportagem publicaram zero ou quase zero a partir do que chegou pelo correio. A exceção é a Rocco, que publica cinco livros por ano com base nesse material.
Muita gente levou um susto com o tamanho do descompasso entre suas expectativas e a realidade. Alguns escritores ficaram revoltados e desanimados com o pouco interesse dos editores pelos originais não solicitados.
O fato é que um novo autor tentando publicar seu primeiro livro dificilmente conseguirá entrar numa grande editora sem construir, antes, algum tipo de reputação, ou sem alguma recomendação que leve o editor a olhar ser livro com mais atenção. Como dizem os próprios editores, mesmo bons livros bons de gente nova deixam de ser publicados, por critérios comerciais, ou porque o livro é considerado bom mas não o bastante para substituir outros que já estavam no cronograma de impressão.
Das revelações surgidas nos últimos anos na literatura brasileira, poucas começaram por grandes editoras. Não é à toa que novos escritores têm buscado outros meios de publicação. Em alguns casos, criando editoras e bancando as edições, ou fazendo a venda do livro por internet.
O que se vê pelas opiniões que chegaram aqui é que o assunto afeta profundamente quem busca um editor para seu livro.
Abaixo, a opinião de um autor que escreveu para cá e prefere não ser identificado.

As editoras não têm nenhuma política definida para descobrir novos autores. Não prestam atenção nos movimentos de literatura fora do mercado e nem sequer conseguem ler o que lhes chega na mesa de trabalho. Não sei se falta interesse ou estrutura para isso. Mas minha impressão é que falta mesmo vontade, garra e até talento.
O grande problema é que no Brasil não existem boas editoras médias, voltadas para ficção nacional. Ou são as grandes, que lançam seus 5, 10, 15, 30 livros por mês ou as pequenas em que alguns autores até pagam para publicar.
Até o cara escrever seu terceiro livro e a Record, Rocco etc publicar, ele fica relegado ao anonimato das pequenas, em que o livro é até comentado, mas não é encontrado nas livrarias nem do Rio, imagina do resto do Brasil.

17.08.07: Produção independente

Olivia Maia

Quando escrevi meu primeiro livro eu tinha acabado de completar oito anos. Foi em março de 1993. Então fiz o que qualquer escritor ansioso por ver sua imperdível obra literária nas mãos de seus leitores faria: uma produção independente.

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O livro do topo é esse primeiro, e o engenhoso título “Não é fácil ser famoso… Ou é?” já é um sinal da minha sensacional desenvoltura na criação de títulos sugestivos, além de apresentar a incerteza que ronda o homem moderno acerca da fama e do reconhecimento. Os outros vieram depois, em um período seguinte de cerca de um ano, o que indica uma longa e promissora carreira.

Também se vê pela contra-capa que um escritor multi-tarefas vale por dois. O crédito da produção e publicação foi deixado de lado, porque eu, ham, provavelmente não sabia o que isso queria dizer.O livro conta, em surpreendentes seis páginas e em uma narrativa ágil e eficiente, a história de um gato laranja e listrado chamado Duquei (e eu juro que não sei como isso deveria ser pronunciado) que queria ser como o Garfield. Um dia, ele topa com Garfield no meio da rua e pede um autógrafo.

Aproveitando o momento, pergunta ao outro o que fazer para ser como ele, famoso e importante. E Garfield o apresenta ao desenhista.

Porque lógico que existia o gato dos quadrinhos e um gato real, que servia como modelo para os quadrinhos. Obviamente, um gato de quadrinhos jamais poderia existir apenas no mundo dos quadrinhos.

E no dia seguinte Duquei vira o famoso Duquei das histórias em quadrinhos. E conclui que o único problema da fama é aguentar as pessoas pedindo autógrafos (e pedindo para ser como ele, imagino).

Claro que o livro não fez lá tanto sucesso e a distribuição foi um pouco precária (entre outros problemas, a tiragem foi de um exemplar), mas os meus dois ou três fieis leitores, na época, disseram que eu era a novíssima revelação da literatura brasileira. Sem dúvida alguém a se ficar de olho nos próximos anos (principalmente porque eu não tinha amigos, tinha orelhas enormes de abano e passava horas sozinha com uma pilha de blocos de construção).

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17.08.07: Terceira Via

Adelaide Amorim

Andei assuntando por aí essa coisa de edição de livro.

Autor novo, velho, caquético ou em projeto, tem mania de editar livro. Quer papel com letrinha impressa, preto no branco, volume pra prateleira, essas coisas. De início, pensa-se sempre na solução clássica: editora convencional, lançamento, noite de autógrafos, divulgação, distribuição e vendas aos montes.

Ó sonho dourado! Ó quimera fugidia!

Iniciada a faina, sai o cara a escrever freneticamente em todas as direções. Original e cópias às dezenas. E-mails, cartas, envelopes volumosos para o correio, testes, amostragem para quem pede, e depois dias de espera, semanas de vazio, angústias inexplicadas. O cara até esquece que escreveu e para quem. Resposta, nada.

“É natural”, ele/a pensa. “Os caras têm pilhas de originais, os departamentos criados para isso vivem atulhados, os profissionais do ramo não chegam a dar conta.” Mas isso não resolve, não consola e não satisfaz. Até que começa a pingar resposta de editora. Menos ou mais enfeitadas delicadas e sensíveis, elas se reúnem na pasta NÃO. Nem vale a pena explicar tudo, quem viveu sabe.

Alguns porém, mais safos, tratam logo de fazer edição independente. Apelam pras pequenas editoras que vivem de tirar grana dos escritores desvalidos. Essas pouco ou nada fazem pelo livro; algumas promovem o lançamento, que sempre é ocasião de venda. Mas não divulgam senão em seu site na internet e não distribuem.

As livrarias também não se interessam por livro de autor desconhecido, em especial se não for biografia escandalosa ou tema em destaque com título chamativo.

Outros fazem a produção numa gráfica e ficam com a tiragem toda pra enfrentar o resto do percurso sozinhos.

Aí fica bem claro que tem que aparecer uma terceira solução que torne menos pedregoso o caminho entre o computador e o leitor. Quem sabe esse site sobre edição independente merece uma visita, uma análise e uma proposta? Além de considerar o transe da produção, o site em questão oferece uma oportunidade de venda que não pode ser ignorada.

Escritores independentes, uni-vos!

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13.08.07: Literatura (inter)dependente

Alexandre Heredia

E aí, qual é a melhor saída para o escritor iniciante aqui nestas terras tupinambás? Será bater de porta em porta em editoras que normalmente os ignoram? Será publicar por conta própria, vendendo carro, apartamento e passando fome? Ou será que é disponibilizar o trabalho de graça na internet?

O assunto já deu pano pra manga pela blogosfera. A Olivia Maia, que já lançou um livro por uma editora grande, deixou sua opinião e destilou sua frustração em um pôste em seu blogue e em uma entrevista para o Digestivo Cultural. O Biajoni, que disponibilizou seu primeiro livro de graça em PDF e lançou o segundo por uma editora independente também deu seus pitacos a respeito. O Branco Leone, que é editor d’Os Viralata, também. Assim como o Valter Ferraz. Enfim, a discussão está aberta.

O ponto é simples: Vale a pena publicar “formalmente” no Brasil? Há diversas maneiras de analisar isso. Como tenho alguma experiência no assunto vou deixar minha singela opinião.

Em primeiro lugar faço questão de descartar completamente a produção por conta própria, nas famigeradas editoras “sob demanda”. Se quer saber meus motivos leia este pôste aqui.

Já disponibilizar seu trabalho de graça na internet eu considero uma saída interessante. Corajosa até. Claro, há o risco de você ver sua chance de um sucesso financeiro ser jogada pelo ralo em nome de uma atitude “rebelde” e “transgressora”. Mas é uma saída. Aliás foi essa uma das maneira que encontrei para sair do anonimato literário. Quem acompanha minha carreira sabe que tudo começou com uma publicação independente e gratuita, o hoje finado NecroZine. Graças à base de leitores angariada com essa iniciativa tivemos o suporte de uma editora para o lançamento da Coleção Necrópole, que está a caminho de seu terceiro volume.

Agora você me pergunta: o que valeu mais a pena, o zine ou o livro? Não há como dissociar um do outro. O zine foi um sucesso. Seu último número teve uma tiragem esgotada de 2.000 exemplares. Isso sem contar os downloads dos PDF’s. O livro também foi um sucesso editorial. Vendemos no Brasil inteiro. Houve algum bafafá na mídia. Nada explosivo, mas o suficiente para valer a pena todo o trabalho (que não foi pouco, acreditem).

Claro que monetariamente falando este sucesso não foi tão grande. Não deu pra abandonar o emprego. Aliás, nem pra comprar muita coisa, pra falar a verdade. No máximo pagar algumas dívidas antigas. Mas nenhum dos autores passou fome por conta do livro, muito pelo contrário. E fomos lidos. Bastante.

Então, qual vantagem Maria leva? Se não encheu o bolso de dindin, por que perder tempo? Não é mais fácil simplesmente jogar na internet? Não gasta, não ganha e é lido. Tudo resolvido, não é?

Quase. Por mais que me doa assumir isso, o livro “físico” possui uma vantagem que o “digital” ainda não tem: Credibilidade.

Os autores “independentes” podem me apedrejar agora. Com todo o direito. Mas eu explico.

Não tem jeito, pessoal. Livro na estante da livraria tem outro status. O autor não é mais um bolchevique anarquista escavando romanticamente trincheiras na periferia do mercado. Ele se torna um Autor (com “A” maiúsculo mesmo). Ele tem o aval de uma empresa que, no final das contas, viu em seu trabalho uma chance de lucro. É como um “selo de qualidade” que, por mais triste que essa constatação seja, os leitores/consumidores valorizam. O cabra vai ter que botar a mão no bolso pra ler o seu trabalho, não vai simplesmente baixá-lo, guardar num canto obscuro do agadê e esquecer. Se ele comprar vai ler. E não vai ler por obrigação de amizade. Vai ler porque (pasmem!) ele se interessou pelo assunto abordado.

Assim, minha opinião a respeito das editoras tradicionais é a mesma da TV por assinatura: ruim com elas, muito pior sem elas. Doa a quem doer.

O que nós autores temos que perceber de uma vez é que não é o caso de escolher entre uma mídia e outra. A resposta está em somar as vantagens de ambas em benefício próprio. Pela primeira vez na histórioa os escritores têm disponível uma janela imensa para expor seus trabalhos, ser notado. Mas não dá pra ignorar o mercado antigo, do papel e tinta. Isso pode mudar no futuro (e eu espero que mude!), mas não dá pra viver de romantismo. O bom idealista é o que sabe que para se ir de A para B é preciso muito trabalho. Não adianta querer revolucionar do mesmo modo que se tira um bandêide. Como disse o personagem de Billy Crystal em “Meu Querido Bob”: passinhos de bebê.

Com paciência a gente chega lá.

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12.08.07: Por Que Os Jovens Autores Querem Ser Publicados Pelas Grandes Editoras?

Alex Castro

A Ana V., que já trabalhou no mercado editorial, escreveu um excelente texto sobre essa questão de publicar em grandes editoras e o que elas podem fazer pelo escritor. Vale a pena ler. Em um dado momento, ela pergunta:

Acho curioso que tanta gente boa tenha tanta vontade de ser editado por uma dessas ditas grandes casas editoriais. Porque, pela minha experiência, isso não ajuda em nada. Não sei se tem a ver com um desejo muito forte de reconhecimento, de ser notado pelo meio editorial, supostamente por especialistas (nhé!, duplo nhé!). Mas rola esse fetiche da distruibuição nacional, de ter os livros expostos em livrarias, essas coisas que não passam disso mesmo: fetiches. O resultado prático disso é o que vocês já podem imaginar: nenhum. (…) Então eu queria entender melhor por que tantos autores-blogueiros, por exemplo, gostariam tanto de ter os seus livros publicados por uma editora grande. Em que isso contribui, exatamente?

E, como autor-blogueiro, respondo: ora, capital cultural. Só isso.

Capital Cultural, Percepção e Reconhecimento

Concordo com rigorosamente tudo no texto da Ana: quem tem ilusões de que sua vida vai mudar depois de ser publicado pela Cia das Letras é um ingênuo. Você vai ser o menor peixe de um marzão enorme, não vai ter prioridade nenhuma lá dentro, vai ser mais um nome do release, vai ter sua tiragem mínima pulverizada por livrarias que só vão comprar o livro porque veio no pacote, se houver divulgação na mídia vai ser porque você correu atrás, e em poucos meses seu livro provavelmente estará esquecido.

A única diferença mesmo, e que não é pequena, é de percepção. Depois de ser publicado pela Cia das Letras você vira, bem, um autor publicado pelo Cia das Letras. Não é grandes coisa, mas é um primeiro passo, e sem ele, não existem os passos subsequentes.

Se você não entende a diferença que isso faz então você não sabe como o mundo funciona. Já senti essa diferença quando passei a escrever pra Tribuna da Imprensa: agora, eu era “colunista de grande jornal diário do Rio de Janeiro”, “o jornal do Lacerda”, “o jornal que derrubou o Getúlio”, etc. Eu não acho minha coluninha nada demais, mas mudou o jeito como muita gente me trata, por incrível que pareça.

A Ana Maria Gonçalves auto-publicou seu primeiro romance e vendeu por seu blog – exatamente como eu e Bia fizemos com a Os Vira-Lata. O segundo livro, Um Defeito de Cor, ela já lançou pela Record. Hoje em dia, ninguém mais chama a Ana de blogueira. Ela é escritora – como, aliás, sempre foi.

Tem gente que diz que sou superficial, vaidoso, que estou perseguindo um “rótulo”, que não imaginava que “alguém livre como eu” se preocupasse com “essas coisas”. A própria Ana V. especula que a vontade de ser publicado por grandes editoras tenha a ver “com um desejo muito forte de reconhecimento”, e eu fico estranhando o tom de crítica. Qual é o problema?

Reconhecimento não é fama. Reconhecimento é ser reconhecido como sendo quem você realmente é. Reconhecimento é o economista não ser tratado, visto ou percebido como contador, mas como economista. Quem estudou por seis anos pra ser médico não gosta de ser chamado de enfermeiro.

A Questão da Grana

Em julho, eu vendi 33 cópias do meu livro de crônicas cubanas, Radical Rebelde Revolucionário. O preço de capa é R$20 e eu recebo 90%, ou seja, R$18: o resto é do Branco. Ou seja, por esses 33 livros, eu ganhei R$594, líquidos e livres de impostos.

Digamos que eu tivesse publicado o livro por editora tradicional, que ele fosse vendido nas livrarias pelos mesmos R$20, que eu recebesse os 5% do preço de capa garantidos por lei e que minha agente ficasse com os seus 20% de praxe, eu receberia apenas R$0,80 por exemplar. Ou seja, ao invés de R$600 receberia R$26 pelos mesmos 33 exemplares vendidos. Para ganhar os mesmos R$600 publicando por editora tradicional, eu precisaria vender 750 exemplares.

E eu me pergunto: será que algum novo autor publicado por editora tradicional vende isso? (Os títulos da Livros do Mal, por exemplo, tinham tiragem de 600 exemplares.)

33 exemplares vendidos em um mês parece pouco, mas os R$600 são bem verdadeiros e fazem um peso gostoso aqui no meu bolso.

A Internet Coloca o Mercado Editorial em Perspectiva

Hoje, estou com o meu romance sendo avaliado por grandes editoras. Enquanto isso, lancei três livros para venda direta aos leitores, de gêneros menos comerciais, contos, crônicas e impressões de viagem. Eu ficaria feliz se tivesse uns dois ou três títulos em catálogo, para fins de reconhecimento, e depois outros tantos, menos ambiciosos, para vender diretamente pelo blog.

Para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu mais leitores e mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares – outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, não tenho capital cultural algum: ainda não sou escritor, sou “blogueiro”.

Não estou dizendo que as uvas estão verdes, não estou reclamando de nada, não acho que é injustiça uma editora não investir em um autor desconhecido que dificilmente dará lucro. Eu quero sim passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo.

A única diferença é que minha experiência na internet me fez ver que todo esse processo tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.

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11.08.07: Divagações sobre o mercado editorial

Anna V.

Já tem quase 2 semanas que meu exemplar de Virgínia Berlim (livro novo do Biajoni) chegou pelo correio, mas ainda não comecei a ler. Não é um bloqueio, é que não tenho conseguido ler nada, sei lá por quê. Estou com uns três livros começados e parados no meio na cabeceira. Isso pode ser normal para muita gente, mas pra mim é uma tremenda anormalidade. O único que consegui terminar nos últimos tempos foi Urubu, do Henfil sobre o Flamengo, e mesmo assim porque é um livro só de charges (maravilhoso, aliás). Aí comecei a ouvir a trilha sonora que vem com a Virgínia, mas só ouvi a primeira faixa, porque os aparelhos de som aqui de casa estão rebelados e se recusam a me dar a honra de ouvir qualquer coisa.

Mas acompanho, meio de longe, a discussão que muito me interessa, sobre literatura independente que passeia pelos blogues do Bia, do Branco Leone, do Valter Ferraz, e por aí afora. Com o meu ponto de vista de quem trabalhou vários anos numa editora de grande porte, acho curioso que tanta gente boa tenha tanta vontade de ser editado por uma dessas ditas grandes casas editoriais. Porque, pela minha experiência, isso não ajuda em nada. Não sei se tem a ver com um desejo muito forte de reconhecimento, de ser notado pelo meio editorial, supostamente por especialistas (nhé!, duplo nhé!). Mas rola esse fetiche da distruibuição nacional, de ter os livros expostos em livrarias, essas coisas que não passam disso mesmo: fetiches. O resultado prático disso é o que vocês já podem imaginar: nenhum. Um autor brasileiro desconhecido que tem um livro lançado por uma grande editora não vende. As pessoas não compram, ora. Sei lá por quê, com certeza há vários motivos na psique do consumidor brasileiro de livros (essa figura misteriosa). Mas já vi investimentos razoáveis em marketing, anúncios, até resenhas boas, nada disso faz as vendas decolarem. Nada. E acredite, todos se frustram. A editora, o autor, o livreiro, todo mundo. Com esforço, consegue-se até colocar os livros nas livrarias (sempre em consignação, porque é só assim que esse mercado surreal funciona), mas em 99% das vezes, três ou quatro meses depois os livreiros devolvem quase tudo, causando aquele desconforto de ter que enviar ao autor uma prestação de contas em que há muito mais devoluções do que vendas.

Não é novidade: fazer e escrever livro no Brasil é um péssimo negócio. Autores, editores e livreiros vivem de um mercado sem lógica. Para cada sucesso há incontáveis fracassos. Incontáveis e injustificáveis. Livros muito bons, com ótimo apelo comercial e qualidade literária passam nas mais brancas nuvens e dois anos depois do lançamento são vendidos a quilo ao papeleiro, porque nem as lojas americanas nem as superbancas de jornal se interessaram em adquirir aquele título para revender a 9,90.

Então eu queria entender melhor por que tantos autores-blogueiros, por exemplo, gostariam tanto de ter os seus livros publicados por uma editora grande. Em que isso contribui, exatamente? Eu não consigo achar que ter o seu livro exposto numa boa livraria por alguns dias (porque as livrarias são pouco mais do que hotéis onde os livros dormem um dia ou dois) faça muito mais pelo seu sucesso literário do que divulgá-lo na internet, por exemplo. O que se quer? Ser lido ou fazer da literatura o seu ganha-pão?

É bem fácil pichar as editoras, por vários motivos. Porque pagam pouco aos autores. Porque não investem em tiragens maiores que diminuem o preço unitário. Porque preferem comprar qualquer porcaria estrangeira a valorizar um novo talento nacional. Mas vamos esclarecer alguns pontos.

Primeiro, em relação aos 10% sobre o preço de capa pagos a título de direito autoral, que são a praxe do mercado. As pessoas parecem pensar que a editora fica com os outros 90% de lucro. Não funciona assim. As editoras vendem para as livrarias com descontos em torno de 40 a 60% (quanto maior a rede, maior o desconto). (Curiosidade: no mercado fonográfico, o percentual do direito autoral é pago sobre o preço efetivo de venda, da gravadora para a loja, e não o preço “de capa” = preço final do consumidor. Em outras palavras, para os músicos é muito pior.) Então o livro que custa R$ 30 foi vendido para a livraria por, em média, R$ 15. Uns 20% representam os custos de produção (maior por exemplo se for um livro traduzido) e industriais: outros R$ 6. Cerca de 10% vão em impostos, mesmo com todas as isenções e descontos dados pela Lei do Livro: mais R$ 3. Outros R$ 3 são os 10% do direito autoral. Quanto sobrou para a editora, de lucro: R$ 3. Os mesmos 10% do autor. Esses números, claro, podem variar, mas a realidade é mais ou menos essa, ou seja, não é um super negócio. Agora, se o livro for um sucesso, nas reimpressões você diminui muitíssimo o custo industrial, não tem mais custo de produção e aí sim o lucro pode ser expressivo.

Segundo, sobre as tiragens. De fato, numa tiragem grande o preço unitário cai muito. Mas se você investe numa tiragem maior que o usual (a tiragem mínima para uma grande editora é 3.000 exemplares. Pode até rolar 2.000, mas não é muito comum), está apostando que o único motivo para um livro vender mais ou menos é o preço. Sem contar que o preço unitário diminui, mas o preço final aumenta, é claro, é mais dinheiro saindo do bolso. Sim, é possível fazer essas apostas. Mas se você faz 1, 2, 3, 5 vezes e não dá certo, é de se esperar que na 7ª tentativa você queira arriscar menos. Muitas e muitas vezes eu defendi tiragens maiores para alguns títulos, algumas vezes isso aconteceu, o preço caiu, e em quase todas significou mais prejuízo para a empresa… Seria bacana se as pessoas pudesse visitar os depósitos das editoras. É tanto livro bom, bonito, e legal, e nenhum pedido para nenhum deles…

Terceiro, sobre a preferência pelos estrangeiros. Neste ponto eu estou do lado dos críticos. Acho lamentável pagar US$ 5000 de adiantamento pelo livro de estréia de um jovem talento neverheardabout gringo (“a fresh new voice“, dizem os catálogos) do que R$ 1000 para um autor que vai estar louco para falar com jornalistas, ir a programas de TV e fazer lançamentos. Aí acho que é complexo de vira-latas mesmo. Mas tem uma coisa que a maioria das pessoas não sabe, que é sobre as consignações. As livrarias no Brasil hoje só trabalham com consignações. Elas não compram os livros das editoras. Elas pegam em consignação, e só quando pedem a reposição é que acertam o que foi vendido. O acerto da consignação é um dos maiores dramas de toda e qualquer editora, porque demora-se séculos para ver o dinheiro daquele livro que não está mais fisicamente no seu estoque mas também ainda não foi vendido pela livraria (ou até pode ter sido vendido, mas o acerto com a editora ainda não foi feito). Cada editora grande tem milhões de reais (mesmo) imobilizados nesses livros consignados e que ainda não foram acertados. Se um título não vender, a livraria devolve tudo quando achar que não vale mais a pena mantê-lo, naquelas quantidades, no seu estoque. Ou seja, o risco é mesmo todo do editor, e não do livreiro. Ainda acontece a situação bizarra de a editora conseguir colocar toda uma tiragem em consignação no mercado e receber pedidos de reposição antes do acerto. Neste caso, é preciso reimprimir, sem ter ainda recebido nenhum tostão das livrarias. Muitas vezes a devolução que vem depois pode ser maior, e aí você reimprime um livro e depois recebe de volta praticamente as duas tiragens inteiras…

Relendo o post, parece que fico como defensora das editoras, e cruz-credo, não é nada disso. Mas tampouco acho que vê-las como as grandes vilãs do processo ajuda a solucionar alguma coisa. A culpa é mais nossa – autores, leitores, cidadãos, whatever – ou então não existe culpa de ninguém.

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10.08.07: Ó, o blogar! Ó, o editar!

Luiz Biajoni

Não passa uma semana sem um e-mail ou um post sobre “Sexo Anal“, meu modesto livrinho para baixar. Hoje mesmo vejo que um casal de namorados – olha que meigo! – fez posts. Sim, cada um fez o seu. Legal.

Aí recebo um e-mail de uma estudante de letras de Minas querendo informações sobre o livro pois o TCC dela é sobre “literatura marginal de internet” (sic). Pô, marginal? E… “de internet”? Isso sim é que eu chamo de… nicho! Vai dizer?

Dentro da discussão, ér, “lanço livro por uma editora e ganho quinhentos real se vender mil exemplares” ou, ér, “boto de grátis na internet” ou, ér, “lanço de maneira independente”, Valter Ferraz (que lança “Capão, outras histórias”) e Branco Leone fizeram posts, ampliando o debate… E também teve a entrevista da Olivia Maia no Digestivo Cultural, onde ela cita meus livros e os do Alex, e a editora OsViraLata… Ah, você não achou a menção? É porque o Julio Daio editou, cortou essa parte, pois a entrevista ia ficar “muito grande”.

Nham. A gente não acha espaço pra aparecer nem na mídia marginal alternativa internética, negada! Vamos rodar uns panfletos no mimeógrafo! Blé!

Falando em meu livro (ainda tem alguns), tá vendendo lesgal. A Sandra Pontes comprou, leu e fez post sobre. Ricardo “Homem-Baile” Monteiro, também. Obrigado, lindos. Olha! O Brigatti também acabou de escrever sobre o livro, relacionando-o ao novo filme de Gus Van Sant. Ufs!

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05.08.07: Uma discussão interessante

Valter Ferraz

Aqui no BRANCO LEONE, um assunto tudo a ver com a publicação do nosso livrinho. Prá quem não conhece, o Albano (Branco Leone) mantém há uns três anos mais ou menos uma doideira que ele chama de projeto de literatura independente na internet.

Na verdade é uma editora independente. Até aí nada demais. O tal projeto, OS VIRALATA já sobrevive com suas pernas próprias e algo que dura três anos, deixa de ser um projeto e vira realidade, menos se for alguma coisa do governo que aí é capaz de virar cinquenta anos e nunca deixar de ser projeto.

Mas, o relevante é que o negócio do Branco é editar livros de autores independentes, tipo o Capão, outras histórias. Falar nisso, ele deixou uma boas palavras sobre o livrinho lá.

E acho que a gente deveria falar mais sobre o assunto, literatura independente. Essa discussão vai longe. Tem gente que é a favor, tem gente que acha que não vale a pena. Eu, particularmente não vejo de forma diferente. Se não, vejamos:

Uma editora “normal” edita o o sujeito desconhecido. Diz que investe uma grana e tal. Aí cobra por exemplo, trinta reais o exemplar. Paga três reais, é isso mesmo: três reais pro autor a título de direito autoral. E se compromete com todas as despesas que tiver com a divulgação, material de imprensa, etc. Só que na realidade, nada disso aparece.

Pior, o autor não tem acesso aos dados de vendas, etc. Ninguém sabe ao certo quanto ele vendeu ou não. Enfim, uma caixa preta dessas, igual aviãozinho da TAM, sabe como é?
Esse tipo de coisa, para mim não serve. Prefiro o risco e a mão de obra de fazer independente, bem tosco mesmo, mas tenho total controle sobre o que está rolando.
Meu editor, o Georges da CBJE ele abre o jogo. Olha cara, teu livro vai custar tanto. Vamos fazer tantos exemplares. Faço uma produção, te mando uma prova. Se você aprovar, rodamos o livro. Quanto maior a tiragem, menor o custo unitário.

Então, para mim é isso o que serve. Posso fazer com que o valor seja o menor possível e que chegue à mão do leitor. E que me leiam. Não pretendo viver disso. Mas quero ser lido, afinal acho que essa é amaior aspição de quem quer escrever.

À propósito, o Brancoleone dá vários exemplos lá no blog dele de outras pessoas como a OLIVIA MAIA, que editou por uma grande editora e sofre suas agruras,o ALEX, o BIAJONI além do próprio BRANCO LEONE que optaram pela forma independente.
É uma discussão que tem que continuar.

E você o que tem a dizer sobre isso?

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02.08.07: “Eu sou baixinho”

Branco Leone

 

Em dezembro passado, levamos as crianças na viagem que fizemos de carro à Bahia. Pedro, apesar de ser filhote de Leone, é o bom-humor em forma de gente. Entre sorrisos e disposições contagiantes, o nanico foi responsável por importantes adições ao adagiário e lendário familiar. Num exemplo, não houve banheiro de posto de gasolina que parássemos sem que ele, ao sair, não explicasse porque tinha usado a privada, e não o urinol dos adultos: “Eu sou baixinho!”, dizia sorrindo. Eu, sempre e em seguida, corrigia: “Você não é baixinho; você tem dez anos”. E ele ria. No posto seguinte, lá vinha ele da privada, puxando o zíper para cima, e explicando: “Eu sou baixinho”. E eu repetia a correção, talvez apenas para fazer minha parte para que ele sempre possa se sentir enorme, como realmente é.

Em dezembro próximo, fará três anos (três anos!) que eu batalho essa porra a que chamei de Os Viralata. Minha molecagem latente e a incorrigível irresponsabilidade que animam meus dias me fizeram criar um site a partir de uma idéia velha, tosca, quase boba. Gente boa que ficou sabendo disso chamou a empreitada de “ambiciosa”. Ambicioso (e burro) talvez fosse querer ganhar dinheiro com isso, mas tal idiotice nunca me passou pela cabeça. Minha idéia foi, ainda é e, se tudo seguir assim (ou não!), continuará sendo fazer um site que sirva de referência a uma busca por literatura independente. Em termos de Google, já consegui: o primeiro link que aparece quando se procura por Literatura Independente (com ou sem aspas) é do Uol, e só aparece porque é do Uol; o segundo link é Os Viralata. Vale visitar o resto da lista de links que aparece, porque dá pra ter uma idéia bem precisa da situação atual: só se encontra catedrático cagando regra e blogueiro inconformado e/ou trabalhando a respeito.

A mídia, a tal mídia, aquela que forma opiniões, só entra em cena pra falar merda. Não que os grandes jornais só estejam publicando bobagens sobre o assunto. O que me fascina é a incapacidade que eles têm de lhe dar uma cor diferente, mais real. Fala-se de escritores independentes e suas ações com o mesmo espanto que se fala do nascimento de um panda albino, ignorando que o escritor independente é tão velho quanto a Literatura. Mas que caralho, será que não dá pra falar do atual despontar de alguns escritores e ações independentes como sendo uma reação à merda estabelecida que domina o mercado literário?

Paula Lee, escritora brasileira radicada em Portugal, me conta que “aqui em Portugal tem se trabalhado para reduzir os preços dos livros, o que apóio. Os livros aqui custam entre 12 a 20 euros, os que estão acima disso afastam o público”. A Sombra do Amor, editora portuguesa que publica, entre outros, o sensacional Esquizofrenias de Bolso, tem seu catálogo inteiro entre 6,50 e 8 euros. Mas enquanto isso, no Brasil, terra de gente rica e letrada, vemos no Estadão de hoje: “Chama atenção o fato de uma edição de autor conseguir tal feito [ser exposta em livrarias] – em parte pela própria natureza das livrarias atuais, que chegam a cobrar das editoras para que um livro ocupe espaço nobre em suas preciosas estantes e vitrines.” O grifo é meu: alugar prateleira é da “natureza” das livrarias? Quando falo do tom das matérias, me refiro a isto: chama a atenção do repórter o fato de uma edição independente alcançar o Olimpo das grandes livrarias, mas não chama a atenção o fato de uma prateleira ser um Olimpo. A livraria aluga a prateleira, e pronto. É assim que funciona. Vamos ao próximo assunto. E o que isto causa no mercado? Ah, deixa pra lá. Melhor não falar nada para não perder anunciante.

Eu sou baixinho. Ao contrário do Pedro, eu sou mesmo baixinho. Minha média de visitas neste blog pouco passa de cem por dia. Eu não sou ninguém, ninguém me ouve. Alex Castro é baixinho. Biajoni é baixinho. Valter Ferraz, que está lançando um livro estupendo (por outro selo) é baixinho. Nós, estes citados, outros tantos, somos todos baixinhos diante disso tudo. Renego conglomerados, uniões, sindicatos, amontoados. Vou sozinho porque sou anarquista, e a anarquia é tanta que até o rótulo de anarquista me incomoda. Mas, porra, se você acha que a Literatura (independente ou não, tanto faz) merece cuidado, fale disso no seu blog, levante discussões sobre a lei do direito autoral, pergunte — a quem puder responder — por que um livro tem que custar 20% de um salário mínimo, por que uma distribuidora ganha quatro vezes mais que um autor, por que no Brasil há mais editoras que livrarias. Esse monte de baixinhos, fazendo alguma coisa além de cuidar dos próprios umbigos, pode fazer diferença se resolver morder. O cachorro que um dia me mordeu a bunda… era baixinho. E doeu.

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01.08.07: Bate-papo com Olivia Maia

Julio Daio Borges

“(…)A Web pode existir sem o papel. Por isso, se tivesse que escolher só um, seria a internet. Pelo menos assim eu posso fazer barulho, ter o meu grupo de leitores. Antigamente os escritores se uniam e criavam revistas de vanguarda. Hoje em dia tudo parece muito mais distante porque as pessoas podem se conhecer e se comunicar mesmo estando muito longe. Parece contra-senso, mas faz muito sentido: porque as pessoas podem tudo isso por causa da Web. Tira a internet da mão dessas pessoas e elas vão estar completamente ilhadas(…)”

1. O que aconteceu (ou o que não aconteceu) com o seu livro que você ficou tão desiludida (com o mercado editorial)?

Eu diria que é uma sensação de “e agora?”. O que acontece é que, afinal, por que ser publicado? Eu tenho um livro e quero mostrar ele pro mundo. Quero ver o meu livro na estante da livraria, e poder então dizer “olha, sou escritora”. Quero saber que as pessoas estão lendo meu livro. E, por quê não, quero um pouco de atenção. Que a mídia olhe, fale do livro. Poxa, eu quero escrever literatura de entretenimento. Eu estou escrevendo uma coisa que é para a massa, não é para um público seleto de leitores especiais ou o que seja. Nunca pretendi virar best-seller, mas que ao menos quem gosta de literatura saiba do meu livro! Quero ler uma crítica no jornal, saber o que acharam. E, sem dúvida, que boa parte disso é uma vaidade. Mas afinal, o livro vai sair, foi escolhido por uma editora que está bancando seu livro todo do bolso dela. Você só vai precisar aparecer na noite de autógrafos e assinar umas cópias.

Acho que o processo todo me deixou um pouco cansada. O mercado editorial é lento, e não poderia ser de outro jeito. Falta livro? Que nada, há livros por todos os lados. Há uma porrada de revelações da literatura brasileira, inclusive sendo publicadas. É só olhar a quantidade de nomes desconhecidos na estante da livraria. Talvez essa gente esteja se sentindo como eu. Uau, consegui. E agora?

Afinal, o que eu quero com meus livros? Acho que me dei conta que disso tudo o mais importante são os leitores. Porque eu fico tão feliz quando um amigo para quem mando meus textos escreve um e-mail enorme sobre um livro que estou escrevendo e mandando para ele. Isso que é importante. Desumano está por aí. As pessoas reclamam que não encontram nas livrarias. Não faço a menor idéia de quantos exemplares foram vendidos, e, aparentemente, nem o meu editor. Será que estão lendo? Não sei. Sei que meus amigos leram, minha família leu, os amigos da minha mãe leram. Alguns leitores do meu blog, que nunca deram sinal de vida, devem ter lido também. Talvez, de certa forma, a atenção da mídia sirva para eu pelo menos ter a sensação de que o livro está sendo lido. É uma espécie de retorno. Eu preciso desse retorno, porque eu escrevo para esse retorno. Mas o livro saiu e é tudo um silêncio meio irritante. Se alguém que eu não conheço topou com meu livro na livraria ou viu a nota que saiu no jornal e comprou, eu não sei. Nem dá vontade de dizer que sou escritora. Talvez eu nem seja. Por que eu seria?

2. Publicar em papel não é a solução? (Um dia foi?)

O papel é importante. Se é por editora grande, por selo independente ou pelo próprio bolso, não importa. Mas o papel é importante porque é o meio para a leitura. Ler na tela do computador é desconfortável e cansativo, para os olhos e para os músculos. Eu nunca consegui ler um livro inteiro na tela do computador. E se não em papel… Onde?

O que não é a solução, para muita gente, é ir atrás de grandes editoras. Claro que se uma grande editora me ligasse agora dizendo “ei, quero publicar seu livro!” eu aceitava. Por quê não? Mas isso não acontece.

Eu já tive vontade de vender meus livros em PDF por um precinho simpático, mas sempre acabo desistindo. Quem lê PDF? Alguns devem ler, mas a maioria acha isso muito esquisito. Eu acho isso muito esquisito.

É preciso saber o que se quer (e a coisa começa a ficar toda muito existencial). Não é o papel que vai deixar alguém famoso e importante, mesmo que só no mundinho da literatura. Não é o papel que vai, necessariamente, fazer com que as pessoas leiam seu livro. Como você mesmo disse, o papel não vai resolver a vida de escritor nenhum. Mas o escritor, inevitavelmente, é um tanto quanto dependente do papel.

3. O que falta no mercado editorial brasileiro contemporâneo?

Eu diria que falta uma literatura mais rápida, mais descartável, um mercado mais ágil. E parece um pouco estúpido dizer isso, quando se pensa que existem editoras que publicam um livro por dia. Mas o livro sai e custa 30 reais e fica inerte na estante da livraria. Não existe público para um livro de 30 reais por dia. Não existe público para um livro por dia!

Isso deve frustrar o próprio mercado. Será que o mercado editorial está desiludido com os escritores brasileiros? Essa gente nova não dá dinheiro nenhum, e me pergunto se o meu livro vai conseguir se pagar.

Talvez sejam leitores de menos ou preço demais. Ou um pouco dos dois. E “aumentar o número de leitores” não é exatamente alguma coisa que a gente saiba como solucionar. Talvez se os livros fossem baratos de verdade. Um livro de 5 reais eu posso ler em dois dias para depois comprar outro.

Espaço no mercado editorial existe para qualquer um que seja persistente o suficiente e minimamente competente, com um tanto de sorte. Não falta espaço para o escritor iniciante no mercado editorial. Para a baixa quantidade de livros que a gente vende, capaz de estarem dando espaço demais! Não me parece que o problema esteja no mercado editorial. O problema é maior: é educação, é cultura, é a pouca importância que se dá para literatura num país como o Brasil. E são tão poucos os que vivem de seus livros que nem sei se dá para chamar “escritor” de profissão. O mercado editorial faz o que pode com esse público limitado que eles têm. E não dá para ter certeza se a culpa por esse público limitado é só da formação cultural da população ou se o próprio mercado editorial não tem também sua parte nela. Será que daria para abaixar os preços dos livros? Ou será que eles preferem não arriscar e continuar vendendo pouco, mas pelo menos mantendo a estabilidade que já têm?

4. E o que falta nos autores que surgem a partir da internet hoje?

Dos que conheço, boa parte está simplesmente dividida entre investir nessa história de continuar na internet ou ir atrás de editora. A internet é um bicho muito recente, e a gente acaba sem saber se é o caminho, se é o meio, se é a finalidade, se é o futuro, se literatura é blog ou se blog é literatura, se não é melhor deixar pra lá.

E acho ainda que nem entra nenhuma questão técnica de estilo e escrita. Se o cara tem seu blog e seus leitores, vá lá, ele que se entenda com eles. O que acontece é que muita gente cria um blog pensando que o blog vai trazer reconhecimento. E é curioso pensar assim porque é o mesmo que acontece com muita gente que quer publicar em papel por editora. O processo pelo qual os autores vão passar na internet é praticamente o mesmo que vão passar em uma editora, só que é mais rápido e mais direto. Se o que você faz interessa, vai ter seus leitores, mesmo que sejam só os seus amigos.

Então o que falta? Talvez um pouco de coragem. Muita gente olha torto quando ouve a palavra “blogueiro”. Ninguém quer ser um blogueiro escritor. É feio! Já viu alguém se apresentar dizendo que “sou um blogueiro”? As pessoas dizem “tenho um blog“, nunca dizem que são blogueiras. Aliás, pelo mesmo motivo que até hoje não consigo dizer que sou escritora. Digo que escrevo. Porque ser blogueiro não é profissão, não é atividade nem nada, é praticamente um hobby. E ser um, digamos, “filatelista escritor”, pra citar um outro hobby, também não parece coisa nada atraente. E “blog” já é uma palavra horrorosa. Aí muitos autores estão todos segurando seus textos, pensando que é melhor mesmo publicar por fora e ser então um escritor blogueiro, que já é muito diferente! De certa forma foi o que eu fiz, mas veja só no que deu. Outros, ainda, ficam escondidos achando que ainda não são bons o suficiente. Imagino que se um editor de uma grande editora dissesse: “você é bom!”, eles acreditariam. Mas isso provavelmente não vai acontecer. E será que a gente consegue se saber escritor, se o livro não tiver saído por uma editora? Será que a gente consegue se apresentar como escritor se tiver bancado a publicação do livro? Nem todos conseguem. Pode ser que fique aquela sensação de “só eu mesmo acredito em mim”.

Tenho pelo menos dois amigos que conheci pelo blog, que têm blogs incríveis e escrevem contos sensacionais. Mas não publicam esses contos, ou porque acham que não estão prontos, ou porque acham que não são bons o suficiente, ou porque simplesmente o blog deles não é exatamente um blog de contos. E não é mesmo, mas essa literatura não precisa ser publicada como um post no blog. Até porque o post é um negócio que tem uma validade curta e cai no esquecimento em menos de uma semana. O blog é só uma porta de entrada para os leitores. Mas será que não dá para tomar coragem e fazer de outro jeito? Então fico pensando: gente, alguém precisa descobrir esses caras!

5. Ter um dos melhores blogs da internet brasileira ajudou o seu livro, ou atrapalhou?

Eu nunca me dei conta que tinha um dos melhores blogs da internet brasileira, para falar bem a verdade. Como eu estava dizendo: e o retorno? Oras, se alguém tivesse me avisado talvez eu tivesse usado isso a meu favor!

De qualquer forma, o blog ajuda bastante. Só poderia ter ajudado. Boa parte do pessoal que foi no lançamento do meu livro foi gente que conheci pela internet, e gente que ficou sabendo do lançamento e do livro pelo meu blog. Boa parte dos meus leitores são da internet, e boa parte das pessoas com quem eu converso sobre literatura e sobre escrever é gente que conheci pela internet, pelo blog. Alguns amigos escreveram sobre o meu livro em seus respectivos blogs, e isso pra mim é tão bom quanto falarem do seu livro em qualquer grande jornal.

O retorno que eu tenho do livro agora é só por causa do blog. As pessoas podem me achar por causa do blog. Estar na internet é importante, porque ficar ali na estante de uma livraria não vai servir de muita coisa para o meu livro. Se alguém procurar por “Olivia Maia” o Google aponta para o meu blog e diz: ali, ó. E então no meu blog eu tenho ali na barra lateral: esse é o meu livro, e você pode comprar ele pela internet. Já que é só mesmo na internet que as pessoas conseguem encontrar o livro.

6. Entre a Web e o papel – se você tivesse de escolher um dos dois –, com quem você ficaria? Por quê?

Ah! Mas eu quero os dois! Para mim não funciona o papel sem a Web. Se eu tivesse publicado Desumano e fosse contar só com a mídia e com alguns amigos mais próximos, estaria muito mais frustrada. É isso que acontece com muitos autores novos que conseguem publicar e então desaparecem. A Web pode existir sem o papel. Por isso, se tivesse que escolher só um, seria a internet. Pelo menos assim eu posso fazer barulho, ter o meu grupo de leitores. Antigamente os escritores se uniam e criavam revistas de vanguarda. Hoje em dia tudo parece muito mais distante porque as pessoas podem se conhecer e se comunicar mesmo estando muito longe. Parece contra-senso, mas faz muito sentido: porque as pessoas podem tudo isso por causa da Web. Tira a internet da mão dessas pessoas e elas vão estar completamente ilhadas. Para um escritor iniciante e desconhecido, sem a internet, acontece uma coisa parecida. Ele está ilhado com a sua literatura, esperando ser descoberto, mesmo que já tenha sido publicado. Essa é a escolha pelo papel, sem a Web. É depender demais de gente que sequer sabe quem é você. Gente que vive muito bem sem precisar saber quem é você.

7. Alguma coisa que você faria diferente (em relação à publicação do seu livro)?

Nada. Porque se fosse fazer qualquer coisa diferente ele provavelmente não estaria publicado. E eu não teria passado por tudo isso e estaria ainda ansiosa procurando alguém que topasse colocar meu livro no mundo. A publicação desse jeito foi importante até mesmo para eu me dar conta que talvez não seja esse o melhor caminho. Eu diria que foi bom enquanto durou, pena que durou tão pouco. Pena que não deu tão certo assim. É claro que olho o livro agora e acho que ele poderia ser melhor; essa é a sina de todo escritor que tem o livro publicado: putz, essa vírgula não devia estar aqui. Mas acredito em minha avó quando ela diz que uma hora a gente tem que dar o trabalho por acabado e parar de revisar, senão não vai parar nunca. Ela escreve roteiro e diz que é assim mesmo. E foi importante para mim dar um propósito para esse primeiro livro pronto; foi o primeiro livro que eu terminei e tive certeza que valia a pena ir atrás de publicação e divulgação. De certa forma, a publicação te força a dar o livro por terminado e seguir em frente para melhorar da próxima vez. O que aconteceu foi que me dei conta que talvez não fosse essa a melhor forma de publicação. Que talvez eu pudesse fazer diferente. E claro, é bom saber que, sim, fui aceita por uma editora grande, não sou a única que acredita no meu trabalho. Nesse sentido a publicação tem um ponto positivo, e serve para eu pensar: mas será que eu preciso mesmo de algum desconhecido importante acreditando no meu trabalho?

8. Um formato que misture o alcance da internet com a respeitabilidade do papel impresso poderia ser a solução?

É a solução. Aliás, uma ótima solução. Solução que parcamente está começando a existir no Brasil, mas ainda é um pouco, eu diria, tosca. Estou falando dessa coisa de impressão de livros on demand. Imprimir livro ainda é muito caro. E quanto menos livros você imprime, mais caro fica. Não podia ser assim. Bom seria se imprimir um livro fosse quase tão prático quanto distribuir um PDF. Mesmo as editoras que teoricamente fazem esse on demand te cobram um valor inicial para cobrir um monte de gastos. Seria um investimento que valeria a pena, se essas editoras estivessem um pouco mais integradas com essa gente que quer publicar. Por enquanto essas editoras só têm mesmo cara de solução para executivo. E escritor é um bicho estranho. Além de que escritor nem sempre tem 500 reais sobrando para investir no próprio livro, não importa o quanto ele acredite no seu talento. Ainda mais usar esses 500 reais em uma editora deslocada que você encontrou fazendo uma busca na internet.

9. O que você ainda espera do seu livro? (Ou já perdeu toda a esperança?)

Eu só espero que ele não vire uma pilha encalhada no galpão de estoque da editora e que depois eles piquem o papel para reciclar – coisa que muitas editoras fazem com encalhes – ou só para jogar no lixo mesmo. É um troço meio cruel. Mas não perdi esperanças de nada, porque, afinal, ele continua aí.

10. Fale de seus novos projetos literários (em papel, apesar de tudo; e na internet…).

Estou com outros 3 livros escritos e muito prontos. Um é uma história policial e os outros dois fazem parte de uma idéia para uma trilogia (não-policial). Um desses terminei recentemente e ainda vou reler um monte, mostrar para alguns amigos e mudar um monte de vírgulas. Não sei ainda o que fazer com eles, mas estou por enquanto tentando descobrir o que afinal eu quero com eles.

Agora estou escrevendo o primeiro livro de uma série policial que há muito estava enrolando para começar. Ao mesmo tempo, resolvi começar uma experiência com a publicação em um blog capítulo a capítulo de uma outra história policial. É uma espécie de romance policial folhetinesco. É uma experiência, mas até agora está sendo ótimo. O primeiro capítulo teve comentários legais e pelo menos os meus amigos estão interessados. Porque eu estava querendo o retorno. Depois de 3 livros prontos e silenciosos e parados eu estava precisando agitar alguma coisa, ter um feedback, lembrar para que eu estava escrevendo…

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29.06.07: Pela Literatura Independente

Olivia Maia

Eis um post que se eu pensar demais vou acabar não postando.

Não é por ser mal-agradecida. Sei bem, porque está meu livrozinho de estréia pela Brasiliense espalhado em livrarias (teoricamente). E também que vou saber enfim quando esse troço vendeu na semana que vem. Penso.

Mas é que cansa.

Muito mais certa é a literatura independente, cada um publica o que bem entende, vende pra quem interessar. Não sai na Folha nem no Fantástico, mas, convenhamos, muita gente boa publicada também não sai.

Das grandes editoras, são poucas as que tem um bom trabalho de divulgação. A Cia. das Letras e… Buena. A Cia. das Letras faz um bom trabalho de divulgação, é verdade. E a Cia. das Letras, mais do que qualquer outra, não está lá tão interessada em publicar desconhecidos (não é impossível, veja bem, por vezes os astros se alinham e seu original cai nas mãos de um agraciado editor que acordou no humor certo para o seu estilo de escrita, mas isso não é, digamos, o que acontece na maioria das vezes), ainda mais porque essa editora está com o calendário de publicações provavelmente muito bem preenchido até 2011.

Claro. Com sorte, cai-se nas mãos de um editor que realmente está interessado em te ver crescer. Pode acontecer. Mas e achar o caminho?

Quero dizer: você é publicado, cai na graça de meia dúzia de jornalistas de pequenos veículos, alguns amigos te arrumam contatos, etc. E devo imaginar que existam leitores que te descobrem porque você foi citado aqui ou ali.

Mas não é isso.

Esses leitores não chegam em você. E você nunca vai ficar sabendo da existência desses leitores. Será que…?

Afinal, escrever? De que me serve? Escrevo. Depois de Desumano, já escrevi dois, e estou terminando um terceiro. Pensando em publicar? Inevitavelmente, mas tudo isso me dá uma angústia tremenda. Porque eu estou sempre muito mais preocupada em escrever do que publicar. Ou melhor: eu estou sempre muito preocupada em publicar, mas não consigo parar de escrever para fazer dessa preocupação uma ação. E daí, a angústia. Ir atrás de publicação dá muito trabalho e é muito chato e eu não tenho dinheiro para pagar agente literário para fazer isso por mim.

O segundo policial que escrevi se chama Operação P-2 e está prontíssimo. E gosto tanto dele. Queria ver ele por aí, em mãos alheias, em bocas alheias. Mais que os meus amigos próximos. Porque tem pelo menos 75 pessoas que lêem esse blog (ou fingem que, segundo o FeedBurner) e talvez ainda outros que poderiam estar interessados. Sim?

E vejo o Biajoni. Ou o Alex Castro. Literatura independente. Escrevem e têm os seus leitores. Pode não ser o grande oceano pacífico de leitores, mas. Nem sei se eles continuam buscando editoras, mas será que precisa? Na verdade eu vejo os dois e fico mesmo é com vontade de fazer como eles.

É que a internet, etc, etc.

Sabemos bem, nós, que moramos aqui na internet. Não o sabem todos, mas nós.

Pois. Cansa. E eu não tenho a menor paciência e habilidade para ficar por aí buscando publicações. E se eu continuar com esse péssimo hábito de escrever um ou dois livros por ano, a coisa vai começar a ficar feia.

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20.03.07: A literatura, a internet e um papo com Alex Castro

Luis Eduardo Matta

A internet, queiramos ou não, é uma realidade para a literatura, sobretudo a fértil literatura que vem surgindo da pena (ou seria do teclado?), de jovens escritores, muitos dos quais talentosos e com bom domínio da escrita e que, por razões variadas, não se aventuraram pelo mercado editorial tradicional.

Resistente no começo, o establishment cultural começa a reconhecer o potencial da internet e a levar em conta os trabalhos nela publicados. Recentemente, o prestigiado suplemento literário “Prosa & Verso” do jornal O Globo, começou a dedicar espaço para resenhar livros publicados exclusivamente na Web. Um dos primeiros autores a ser agraciado com essa iniciativa foi Alex Castro, titular do popular blog Liberal – Libertário – Libertino e escritor carioca atualmente residindo nos Estados Unidos, que teve o seu livro de contos Onde perdemos tudo resenhado pelo renomado crítico e escritor Miguel Sanches Neto, na edição de 11 de novembro passado. Alex Castro é, também, autor do romance Mulher de um homem só, que já foi baixado trinta mil vezes, durante os três anos em que esteve disponível gratuitamente na internet. Uma marca, aliás, que muitos escritores com livros publicados não consegue atingir.

Se a literatura e a internet farão um casamento duradouro – ou até mesmo eterno – ou se não passa de uma fase, isso ainda é uma incógnita. Eu, pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre se o livro de papel tal qual conhecemos irá desaparecer, como muitos prevêem; o que, naturalmente, não impede que um suporte eletrônico de leitura se consolide e ambos possam conviver sem atritos.

Na entrevista abaixo, Alex Castro nos fala sobre a sua experiência literária na internet, sua obra e sua visão sobre a literatura contemporânea, aproveitando para contar um pouco sobre a sua vida, o que poderá surpreender vários dos leitores do seu blog e, até mesmo, da sua literatura.

1. Alex, você escreveu um romance Mulher de um homem só e, agora, aventurou-se, também, pelos contos, com Onde perdemos tudo. Quais seriam as semelhanças entre esses dois trabalhos? Quais foram as suas intenções ao escrevê-los (se as houve)?

São dois projetos bem distintos. O livro de contos Onde perdemos tudo reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Eu nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta.

O romance, Mulher de um homem só, desenvolve o tema de um dos contos: se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.

2. Você mantém um blog muito popular na internet. A sua experiência na rede inspirou-o ou auxiliou-o na sua atividade literária? Gostaria que falasse um pouco a respeito.

Tanto Onde perdemos tudo quanto Mulher de um homem só foram escritos antes que eu ouvisse falar de blogs, quando eu mal tinha e-mail. Acho engraçado as pessoas que lêem esses livros e fazem análises complexas sobre sua linguagem web! Mas, enfim, cada leitor lê como quer, não há leitura certa.

Meu blog foi criado em função de um outro projeto, ainda em andamento, de um livro de ensaios sobre as prisões que acorrentam o pensamento do homem, como religião, monogamia, heterossexualidade, preconceito, patriotismo, ambição, medo, verdade, etc. Como são ensaios polêmicos, achei que seria interessante testá-los antes na internet para ver que tipo de recepção teriam. E, bem, é isso que ainda estou fazendo. Só mais tarde aproveitei a plataforma web para também divulgar esses outros trabalhos que já estavam prontos.

Aprendi muitíssimo com a experiência. Hoje, já acho imprescindível esse contato de um escritor com seu público que a internet permite. O escritor que não usa desse recurso está se limitando e se isolando, está se comportando como um surdo que não quer ouvir seu público.

Por outro lado, acho importante acabar com essa idéia de “escritor-blogueiro”. Antigamente, os poetas mimeografavam suas poesias e iam de bar em bar distribuindo-as, e ninguém os chamava de “poetas-mimeografeiros”. Eu distribuo meus livros em formato PDF e não sou um “escritor-pedeefeiro”. As pessoas confundem meio com mensagem. A internet é somente mais um meio, uma plataforma, que permite que a literatura seja melhor distribuída, mas ainda é a mesma literatura de sempre.

Mesmo os ensaios das prisões, que foram escritos depois de eu ter experiência com web e blogs, não têm nada a ver com a estética, agilidade, vocabulário ou concisão da internet. São ensaios longos, complexos, refletidos. Não foram escritos para serem lidos em cinco minutos, por alguém desatento, que está batendo papo no MSN e checando e-mail ao mesmo tempo. Exigem um leitor crítico e pensante.

3. Há elementos autobiográficos nos seus livros ou estes são apenas produto de uma mente criadora?

Eu acho que não há nada mais tedioso, lugar-comum e narcisista do que esses escritores cujos protagonistas são sempre o alter ego deles mesmos, esses escritores que escrevem livros para falar de si mesmos ou para exorcizar seus demônios.

Fiz isso só uma vez, no último conto de Onde perdemos tudo, que é um conto humorístico, pra quebrar um pouco o clima deprê do livro. É a história de um escritor chamado Alexandre que está pra lançar seu livro de contos Onde perdemos tudo quando descobre um conto igual em outro livro escrito cinqüenta anos antes. A grande brincadeira é mostrar, entre outras coisas, o ridículo desse negócio de escrever sobre escritores escrevendo sobre escritores. Jurei que nunca mais faço isso, a não ser que tenha um bom motivo.

Olha, meus demônios eu exorcizo na terapia. Eu já me conheço, não preciso usar ficção pra isso. Para mim, literatura é para criar gente, pra eu entrar na cabeça de outras pessoas, pra eu tentar criar empatia com esses personagens tão diferentes de mim, para eu tentar descobrir como essas pessoas reagiriam a determinadas situações. Se for pra falar de mim mesmo, qual é a graça? Eu já sei quem eu sou. Eu já sei o que eu faria. Melhor escrever não-ficção.

Então, não: meu trabalho, além de não ser autobiográfico, é anti-autobiográfico. Às vezes, só o fato de um personagem ser parecido comigo já me corta o tesão. Meu romance, Mulher de um homem só, ficou parado por muito tempo, porque ele deveria logicamente ser escrito do ponto de vista do Murilo ou da Júlia, que são personagens um pouco parecidos comigo. E eu nunca começava o romance porque, bem, eu já conhecia esses personagens, não tinha interesse em mergulhar neles, faltava tesão. Só quando uma amiga me sugeriu que o romance fosse narrado pela esposa é que a coisa deslanchou. Eu não sabia quem era aquela mulher, ela não tinha um grande papel na trama, ela não era nada parecida comigo. Escrevi Mulher de um homem só, então, para conhecer a Carla, para saber que tipo de pessoa ela era, para compreender por que ela fez as coisas que fez e aturou as coisas que aturou.

E, por outro lado, claro, toda literatura é autobiográfica, de certo modo, porque a matéria-prima da literatura é a vida. O escritor rouba pedaços de vida de todo mundo que ele conhece, e mais ainda de si mesmo. Então, todos os personagens de um escritor são repletos de coisinhas dele, de coisas que aconteceram com ele, de manias que ele tem – mas também das coisinhas e manias dos seus amigos e parentes. Então, apesar dos meus personagens terem várias experiências em comum comigo ou com pessoas que conheço, eles não são nem eu nem essas pessoas. Se não achasse que são indivíduos independentes, nem teria mostrado o texto pra ninguém, aliás.

4. Como blogueiro consagrado, como você vê o papel da internet no campo da cultura, da informação e do entretenimento hoje em dia? Você acredita que a internet vai substituir a imprensa e o suporte livro tal qual nós conhecemos hoje?

Blogueiro consagrado? Ha ha. Quando me dizem isso eu sempre lembro de uma amiga que definiu com precisão: ser um “blogueiro famoso” é como ser “miss minissaia do festival das flores de Lambari, ou seja, nada.”

Enfim, eu não sou contra ler na tela per se. Eu tenho um laptop e leio muito nele. Tem pessoas que falam que o papel sempre será superior porque podem ler num parque, encostados numa árvore, ao ar-livre, e eu acho uma certa graça porque eu faço tudo isso com meu laptop! Mas, realmente, ler romances ou poesia sempre vai ser melhor no papel.

Por outro lado, jornais, enciclopédias, atlas e dicionários já estão totalmente obsoletos, as pessoas só ainda não sabem disso. Hoje em dia, quem ainda gasta R$2 mil numa Enciclopédia Britânica? Dou aulas pra muitos jovens e nenhum deles lê jornal-papel. A geração que está virando gente hoje lê jornais na Web. Eu mesmo não entendo o que leva alguém a comprar um jornal às onze da manhã, sabendo que ele foi fechado às vezes mais de doze horas antes e está completamente desatualizado. Além de que suja as mãos, é difícil de dobrar e mata arvorezinhas. Sim, muita gente diz que gosta justamente dessa liturgia ritual do dobrar e desdobrar, das pontas dos dedos sujos, mas são porque associam o gestual ao ato de se informar, porque cresceram assim. Enquanto essas pessoas viverem, haverá jornal. O problema é que, como os jornais não estão adquirindo novos leitores, quando morrer essa geração, o jornal acaba. Do meu ponto de vista, aliás, faria mais sentido dar de graça os jornais impressos desatualizados e depois cobrar para o leitor entrar no site e ler as notícias atualizadas. Mas eu sempre vejo tudo ao contrário.

Já a literatura acho que não tem nada a temer da internet.

5. Tanto Mulher de um homem só quanto Onde perdemos tudo foram publicados na internet. Como é essa experiência de publicar unicamente no mundo virtual? Você se sente gratificado? Como é o retorno dos leitores? Como tem sido a receptividade dos livros junto aos internautas?

Lancei Onde perdemos tudo na internet em setembro de 2006, já vendi cerca de 60 cópias (o que parece pouco) mas ganhei líquidos R$700, o que é muito, ainda mais pra um livro de contos de um desconhecido. Se o livro tivesse saído por uma editora tradicional e eu ganhasse os tradicionais 5% do preço de capa, eu teria que vender mais de mil exemplares pra ganhar a mesma coisa.

Mulher de um homem só foi distribuído gratuitamente na rede por 3 anos, sendo baixado mais de 30 mil vezes. Graças ao romance e ao blog, um professor universitário brasileiro nos Estados Unidos me convidou para vir fazer doutorado em Literatura em Nova Orleans, e é onde estou agora, vivendo de bolsa. O blog rende em média R$500 por mês só em comissões do Submarino e do Google. Parece pouco, mas pra um blog que nunca achei que daria nada? O dinheiro fica acumulando na minha conta corrente no Brasil e, quando volto pra casa, vivo por conta dessa grana, o que é uma sensação bem gostosa.

Na verdade, para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu BEM mais leitores e BEM mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares – outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, ainda não sou escritor, sou “blogueiro”. Veja bem: não estou dizendo que as uvas estão verdes. Eu quero passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo, mas a internet me fez ver o verdadeiro valor disso. Tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.

6. Como você enxerga a nova literatura contemporânea brasileira? Você tem contato com escritores da chamada “nova geração” e/ou com seus livros e textos? Você percebe características comuns nos trabalhos destes jovens autores e nas suas propostas literárias? Pode-se distinguir uma voz e uma fisionomia predominantes nesta nova literatura? E como você situaria o seu trabalho dentro dela?

Pode parecer incrível para quem me vê como um blogueiro tecnófilo do século XXI, mas eu sou um homem do século XIX. É lá que eu passo a maior parte do tempo, é lá que eu trabalho, é de lá que são os livros que eu leio. Meu maior interesse intelectual, por dez anos, foram as guerras do Prata, desde a conquista final do Uruguai, em 1816, até o final da Guerra do Paraguai.

Agora, meu tema principal de pesquisa são as representações da escravidão na literatura brasileira do século XIX, com ênfase no processo de canonização literária. Será que escravidão foi abordada de forma diferente nos romances que foram consagrados e nos que foram esquecidos? Será que a abordagem de um tema polêmico e desagradável desses não influiu no processo de canonização? Ou seja, não é nem que a escravidão foi ignorada, mas que o establishment ignorou os livros que falaram dela. E qual a relação disso com o processo de formação de uma identidade nacional através da literatura? Será que, nesse momento de decidir quem éramos, queríamos ser um país caracterizado pela escravidão? A coisa também passa por questões de teoria e estética da recepção. Afinal, como esses livros, tanto canônicos quanto não-canônicos, eram lidos? Quem os lia?

Além disso, para fins de comparação, estou mergulhando fundo na literatura abolicionista cubana, um país bem parecido com o Brasil em muitas coisas mas com uma literatura completamente diferente, com romances abordando de frente os dilemas mais duros da escravidão, problematizando questões que nenhum escritor brasileiro ousou nem levantar. Por quê? Por que tamanha diferença? Por que os escritores cubanos ousaram atacar literariamente a escravidão enquanto os brasileiros fugiram da raia e fingiram que não viram o problema?

Em suma, sei que fugi da pergunta mas já volto. Eu queria dizer que meus interesses intelectuais e literários me prendem tanto ao século XIX que, sinceramente, não tenho tempo nem saco pro XX nem pro XXI. O século XX foi um século chato e sangrento. Não me atrai.

Li pouquíssimos autores contemporâneos e gosto de menos ainda. Tenho todos os Livros do Mal e acho que os Daniéis, Galera e Pellizzari, ainda vão muito longe, mas que nem começaram a dar tudo o que podem dar. O Biajoni, que escreveu o ainda não publicado Sexo Anal, um dia vai ser visto como o gênio da nossa geração. Dos meus contemporâneos, acho que os melhores são o Alexandre Soares Silva e a Daniela Abade. A Coisa Não-Deus e Crônicos são romances simplesmente sensacionais, criativos, poderosos, que fogem à estética vigente, que ousam, arriscam. Me entristece ver que ambos não são nem um pouco badalados e que estão sempre parecendo que vão parar, enquanto que semi-analfabetos vivem saindo nas primeiras páginas de cadernos literários. Outro grande livro contemporâneo foi Aqueles Cães Malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, que ganhou o Jabuti em 1995, publicou outros dois livros praticamente iguais ao primeiro e depois sumiu. Por fim, o grande lançamento do ano passado foi o tour-de-force da Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor, um tijolão maravilhoso de mil páginas, no melhor estilo dos romances do século XIX que eu amo, contando 80 anos de vida de uma escrava africana no Brasil. Ainda vai ser um clássico. De resto, ou não li ou não gostei.

A nossa literatura contemporânea tem uma série de cacoetes que me incomodam. Um deles é essa mania de escritor escrever livros sobre escritores malditos, bebendo, fumando e falando palavrão, andando por uma cidade suja e sem nome, mostrando como a vida é tediosa e sem sentido, como não significa nada, blá blá blá. Bukowski já fez isso. Rubem Fonseca já fez isso. Até Camus já fez isso. Essa estética do maldito é muito chata. Não que eu seja contra per se, mas que é algo que já foi feito à exaustão. Estorvo, do Chico, pra mim é emblemático desse processo, um livro que reúne todas as piores características desse “gênero”.

E o pior é que esses escritores se chamam, na maior cara dura, de malditos, rebeldes e ousados. Ora, gostando-se ou não, “maldito, rebelde e ousado” (ele iria odiar a classificação) é A Coisa Não-Deus, do Alexandre Soares Silva, um livro que é diferente de tudo o que é publicado por aí, ambientado em um céu povoado pelos grandes gênios da humanidade! Veja bem, não estou nem falando de qualidade, muita gente pra quem emprestei A Coisa Não-Deus odiou, o que só prova que meu gosto é o inverso do senso comum. Mas, independente da qualidade do produto final, não há ousadia ou rebeldia alguma em se publicar mais um romance sobre sexo, drogas e rock’n'roll, sobre narradores apáticos em uma cidade violenta, sobre narradores que são um pastiche, voluntário ou não, dos piores livros de Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Alguns desses romances são melhores, outros são piores, mas há pencas deles nas livrarias. Qual é a ousadia nisso? Ousadia é escrever um livro debochado ambientado no céu. Você pode até gostar do livro ou não, mas tem que reconhecer que é ousado.

Assim como ousado é o Bia, que escreveu um livro chamado Sexo Anal, sobre uma moça que adora, bem, sexo anal, e é um livro engraçado, sensível, feminino, lindo. Esse é tão ousado que já passou por tudo quanto é editora e nenhuma teve culhão de publicar. Ousado também é você, Luis, com o seu projeto maravilhoso e quixotesco de criar uma literatura de entretenimento no Brasil, porque nem sempre a gente quer um romance transcendental, às vezes a gente quer só umas perseguições e explosões, e sem um mercado editorial saudável mantido por livros de entretenimento que vendam bem, também não se tem uma boa literatura.

Então, eu acho que a fisionomia, a voz dessa nossa nova literatura é a voz dos narradores apáticos, beberrões, drogados, insensíveis, violentos, em suma, chatos, chatos de doer. Eu tento ao máximo me situar fora disso.

Mas, como eu disse, sou mesmo um filho do século XIX.

***

21.11.06 – Quer pagar quanto?!

Alexandre Heredia

Imagine a cena: um garoto entra em uma empresa de grande porte e pede emprego. Ele será então levado até o departamento de RH, onde será entrevistado. Agora imagine uma entrevista assim:

Entrevistador: – Muito bem, qual a vaga pretendida?
Garoto: – Analista de sistemas.
E: – Ótimo! Exatamente o que estávamos procurando! Você tem um currículo?
G: – Não. Precisava?
E: – Ajudava. Mas tudo bem, você pode preencher uma ficha padrão. Vejamos: onde você se formou?
G: – Não me formei. Aliás, nem estudei em lugar nenhum…
E: – Hum, tudo bem. Mas você tem alguma experiência profissional?
G: – Nenhuma. Esta é a primeira empresa que eu entrei.
E: – Não entrou ainda. Mas e experiência em programação? Tem alguma?
G: – Arrã. Já fiz uns programinhas em Logo no computador de casa. Fiz um trenzinho que atravessava a tela. Bem bonito. Também programei bastante em Basic, no MSX do meu primo. Um programinha meu até foi publicado em uma revista…
E: – Que revista?
G: – “Micreiros”. Só teve um número. Meu primo mesmo que editou. Não foi pra frente. O Xerox era muito caro.
E: (Faz um longo muxoxo)
G: – E aí? A vaga é minha?

Pausa. Qual em sua opinião seria a resposta do entrevistador? Três opções:

a) Desculpe, mas não temos nenhuma vaga que se encaixa em seu perfil. Passar bem.
b) Claro! Sabe, nós somos uma empresa com veias filantrópicas. Não ligamos a mínima para ganhar dinheiro. Achamos um desafio pegar uma massa bruta como você e moldar em um profissional competente. É para isso que nós existimos, para dar a você, pobre mentecapto, uma chance de ser alguém! Seja muito bem vindo à nossa corporação!
c) Claro! Só que, veja bem, o acordo é um pouco diferente do que você está imaginando. Nós te damos a vaga, sem problemas. Só que você vai ter que pagar para a gente o seu salário. Digamos, três mil por mês está bom? Você programa para a gente nas linguagens que quiser, e caso algum cliente nosso se interessar por um programa de sua autoria, te pagamos uma mísera comissão em cima do valor de venda do programa. Que tal?

Obviamente a resposta natural seria a alternativa A. As outras poderiam fazer parte de um episódio de Além da Imaginação ou algo semelhante. Mas vamos analisá-las mesmo assim.

A alternativa B é o sonho de qualquer desempregado. Conseguir um emprego legal sem precisar estudar ou ter experiência anterior. É um emprego de mão beijada de uma empresa extremamente maternal. Já a C é o oposto. Um pesadelo completo. O pobre coitado além de trabalhar sem perspectivas de ganhos, teria que PAGAR para isso! É uma situação óbvia de golpe. Quase escravidão!

Os mais sagazes com certeza já entenderam a analogia. Sim, é sobre o mercado editorial. A alternativa A é a resposta padrão de uma editora tradicional. Perceba que o entrevistador nem se deu ao luxo de ler o programa escrito pelo garoto. E por que? Porque ele sabe que será algo que não o interessará, que não trará lucros ou benefícios de qualquer tipo à sua organização. Por outro lado a alternativa B simboliza o que um escritor espera de uma editora. É uma perspectiva irreal e fadada à decepção. Já a C, bom, ela simboliza o real objetivo destas linhas: as famigeradas “editoras sob-demanda”.

E por que famigeradas? Porque elas apregoam serem “prestadoras de serviço”, quando na verdade são apenas “buracos negros do seu dinheiro”. Os únicos que realmente lucram com a impressão de livros sob demanda são os donos da “editora”. Nem escritores nem leitores são beneficiados. Nem monetariamente, nem em termos de divulgação do trabalho. Confessa: quantos livros “artesanais” como estes você comprou espontaneamente no último ano? Aqueles lançados por seus amigos que você comprou para “dar uma força” não contam!

Entenda de uma vez: ser escritor é uma profissão como qualquer outra. Não é apenas sentar na frente de um computador e colocar uma palavra atrás da outra. Requer estudo e muita, mas MUITA prática. Requer tanta dedicação e empenho quanto qualquer outra carreira intelectual. E por que esta profissão deveria seguir padrões tão estapafúrdios como os apresentados na anedota aí em cima? Duvido muito que qualquer um aceitasse trabalhar nas condições impostas pela alternativa C. Então por que as aceitam quando se tornam escritores?

Eu sei na pele o quanto é difícil agüentar as recusas das editoras. Não é algo fácil de digerir, pois, diferente de profissionais mais “braçais” (sem ofensas), escritores se consideram Artistas (com A maiúsculo mesmo). Querem ser lidos, nem que para isso tenham que abrir mão de RECEBER pelo próprio trabalho e até mesmo PAGAR uma dinheirama para isso. É aí que estas tais “editoras sob-demanda” cravaram seus dentes. E nós, impulsionados por nossos egos inflamados e pela carência de atenção, caímos em seu golpe. Vendemos carro, fazemos empréstimos, passamos necessidades, brigamos com a família, sujamos nosso nome, fazemos o diabo em nome da arte. E todo este esforço termina na maioria das vezes com uma casa abarrotada de livros encalhados e o escritor de volta ao ponto de onde começou: desconhecido e pouco lido. Além de um pouco mais pobre.

Claro, há exceções. Todo escritor pode citar outros que saíram do anonimato bancando a primeira edição de seu primeiro livro. Mas é a velha mania de confundir as exceções com a regra. Garanto que para cada escritor que conseguiu, seja por sorte ou por competência, engrenar uma carreira de sucesso bancando o primeiro livro há pelo menos mil outros que morreram no esquecimento e no cheque especial.

Não estou de forma alguma justificando com este discurso a atitude de grande parte das editoras convencionais, que levam meses (até anos!) avaliando um original, para depois recusar sem maiores explicações, às vezes sem ao menos lerem o material. Na maioria das vezes nem mesmo respondem se sim ou se não. Simplesmente deixam o escritor se remoendo de angústia. Mas um erro não pode justificar outro muito pior. O mote de “tudo pela arte” não pode ser subvertido em uma servidão contratual consentida. É algo que não faz sentido, não deveria ser sequer cogitado por escritores aspirantes. E mesmo assim, o que vemos é a proliferação destas editoras golpistas e em sua maioria mal intencionadas, que lucram inescrupulosamente em cima do trabalho alheio. E um monte de pessoas que caem neste golpe voluntariamente.

Este é um tema espinhoso e polêmico (comentários são incentivados), que ainda vai render outros pôstes, mas este já ficou muito longo. Depois eu continuo. Mas gostaria de saber sua opinião a respeito.

***

29.07.05: Não existe pote de ouro no arco-íris do escritor

Julio Daio Borges

 

Eu já ia usar esse título, mas eu ia escrever sobre a Geração 90. Eu ia escrever sobre a história que eu ouvi de um dono de sebo, que conheceu todo esse pessoal. De como eles estão na mídia toda hora (tema de Coluna anterior) e de como eles estão felizes por receber um adiantamento (para escrever um livro em, sei lá, um ano) de 500 reais mensais. 500 reais. Tem base? Para ser escritor. Escritor de editora grande. Escritor com distribuição nacional, tal e coisa, coisa e tal. Escritor.
Mas o assunto do Movimento Literatura Urgente me atropelou. Na verdade, por conta de uma matéria sobre isso na Veja, os próprios escritores já entraram na conversa que eu ia começar. Entraram de sola. E eu vou tentar provar por que esse Movimento está errado e por que quase todos eles – dentro desse Movimento – também estão. Não provar pelas mesmas razões que eles evocam, mas por outras, e por experiência própria. Vocês estão livres para concordar ou discordar, tá?

Eu não sei o que aconteceu dos anos 90 pra cá, mas um montão de escrevinhadores – na minha geração (e eu me incluo) – resolveu achar que podia viver de publicar. Será que foi o surgimento (e a consolidação) da editora do Luiz Schwarcz? Será que foi a revolução (editorial) que a Companhia das Letras provocou? Será que foi a modernização do setor que as outras editoras (velhas e novas) se viram obrigadas a implementar? Será que foi o êxito do Rubem Fonseca? Será que foi o João Ubaldo Ribeiro na Nova Fronteira? Será que foi o Luis Fernando Verissimo na Objetiva? Será que foi o Paulo Coelho – sinal-da-cruz agora – na Rocco?

Eu sei lá. Eu sei que um monte de gente, na aurora dos seus vinte anos, dos anos 90 pra cá, resolveu achar que dava.

Não dá. Nunca deu e nem digo que nunca dará, mas dificilmente daria – em qualquer lugar. Não é um problema do Brasil. Não é um problema estrutural nosso, mas é a realidade do escritor. Vocês – escritores da Geração 90, que estão agora reclamando – já pensaram que Kafka, um dos pais da modernidade, morreu antes de se consagrar? Lembram que ele pediu a Max Brod, seu testamenteiro, para queimar a maior parte do seu espólio? Não, vocês não se lembram, vocês não conseguem se lembrar. Lembram provavelmente de Thomas Mann, outro dos pais da modernidade, que não amargou falta de reconhecimento mas que já se estabeleceu logo no primeiro romance. Mas vocês se esqueceram de que Thomas Mann é um caso à parte.

Vamos voltar pra cá. Vocês – escritores da Geração 90 – esqueceram que, no Brasil, quase ninguém viveu de ser escritor? Eram funcionários públicos; tinham outros cargos, tinham outras profissões. Ninguém era escritor full time. Só o Jorge Amado – que tinha a militância por trás. O Drummond foi trabalhar com Gustavo Capanema, ministro do Getúlio. O Guimarães Rosa foi ser médico; depois, diplomata. O Euclides da Cunha era engenheiro; construía pontes (nem jornalista era). O Rubem Fonseca trabalhou um tempão na Light (foi também delegado de polícia, como todo mundo sabe). O Ferreira Gullar foi escrever roteiro e dramaturgia na Globo. O Mário de Andrade não foi ao casamento do Fernando Sabino por falta de grana. O Oswald de Andrade era dono do bairro inteiro de Cerqueira César (vulgo “Jardins”), em São Paulo, e torrou toda a sua fortuna com esse negócio de ser escritor. O Álvares de Azevedo morreu aos 22 anos; o Castro Alves, aos 24. O Luis Fernando Verissimo – o bem-amado da capa da Veja, que vende milhões de exemplares todos os anos – mora até hoje na mesma casa que foi de seu pai (Érico Verissimo, também escritor). O Paulo Coelho ficou milionário, tá, mas só. E alguém aqui quer imitá-lo?

Agora, vocês, com vinte, trinta anos, que querem viver de literatura (ou viver de escrever), acham que dá. Não é por que vocês querem que vai dar. Sinto lhes informar.

O problema de escrever é um só. É gostoso; é terapêutico; alivia que nossa… Mas não resolve os nossos problemas, de escritores. O escritor geralmente começa na adolescência, com um diário (eu disse “diário”, não disse “blog”). Tem um problema qualquer – de carência, de insegurança, de auto-afirmação – e dá-lhe diário pra extravasar. Como eu disse, é terapêutico, funciona. O problema continua lá (escrever não resolve), mas parece que – depois de escrever – fica mais fácil lidar. Esse é o problema, na verdade. A maioria dos escritores carrega essa muleta para a vida inteira (“Os escritores – ao contrário de todas as outras pessoas – não conseguiram se livrar do diário”, Martin Amis na Flip 2004), e quando a coisa aperta, mais lá na frente, dá-lhe diário ou o que estiver no lugar (agora pode colocar “blog”). Como os problemas não se resolvem escrevendo, o escritor começa a colocar a culpa nos que estão em volta: pais, professores, namorada, esposa, chefe, sociedade, governo, essas coisas. A escrita vira uma fuga e ele desiste de resolver os problemas que – porque o mundo está contra ele – não se resolvem mais. Então procura uma solução mágica.

Esse Movimento Literatura Urgente é mais uma solução mágica para resolver o problema do escritor. Uma mesada, um subsídio, uma parte dos impostos, sei lá, não importa. Os escritores não se convenceram até agora de que não vão viver apenas de publicar. Ainda mais no começo da carreira…

Se eu, pela minha experiência, tivesse um conselho para quem pensa em ser escritor – e deixar tudo pra trás para se dedicar –, meu conselho seria: não largue, não deixe tudo pra trás. Se você tem um emprego, não deixe seu emprego. Se você tem uma profissão, não largue sua profissão. Porque ser escritor não é emprego, não é profissão, não é cargo. Ainda não descobriram uma maneira de se viver só de publicar. E não é só no Brasil – em nenhum lugar.

O problema – da Geração 90, agora – é que eles acreditaram que dava pra viver de publicar. Eles viram a miragem – largaram tudo –, caminharam até lá e depois descobriram que não havia nada. Percorreram o arco-íris inteiro mas o pote de ouro não estava lá no final. Saíram na Folha, falaram na televisão, tocaram no rádio, embarcaram para feiras (ou festas ou jornadas) literárias, bienais, fundaram editoras, foram contratados por “editora grande”, montaram blogs, o escambau – mas, enfim, descobriram que não adiantava nada. Porque não existe mercado editorial no Brasil. O mercado editorial daqui é uma ficção! Não temos leitores, as tiragens são simbólicas, os livros são considerados caros, proporcionalmente quase ninguém compra, e a porcentagem que o escritor recebe é aquela que vocês já sabem: 10% ou menor, muito menor. Vamos fazer uma conta rápida: as tiragens máximas são de 3 mil exemplares; vender mil (um mil) no Brasil (estou falando de escritor relativamente novo) é um estrondo; um livro de R$ 50 (preço de capa – livro caro), mil exemplares, 10% para o escritor; dá 5 mil reais. Cinco mil reais para viver um, dois anos – dá menos do que os 500 reais mensais (de adiantamento) que eu citei no primeiro parágrafo.

E como é que vocês foram achar que dava?

Então o escritor – da Geração 90, da Geração 2000, sei lá – acabou de concluir que não dá. Tenta outras formas de remuneração (afinal, já largou tudo: amigos, família, profissão – às vezes, nem tem pra largar): jornalismo, cinema, etc. Jornalismo também não dá. Escritores e jornalistas precisam conversar. O escritor – que não é jornalista – não é, portanto, contratado do jornal (da revista, sei lá). Colabora mas quase nunca recebe (é colaborador, não é do staff). Ou recebe, mas recebe mal (de novo, nem aqueles 500 reais). A mídia está quebrada, cara, não te contaram? Cinema. Ele ouviu falar que o Marçal Aquino ganha uma grana para roteirizar. Mas é o Marçal. O Marçal tem quantos anos nas costas de sua carreira de escritor? E a indústria cinematográfica brasileira vive – ainda – uma situação de instabilidade periclitante. As leis de incentivo podem mudar. O cinema brasileiro pode acabar, como acabou – de uma hora pra outra – na era Collor, porque acabaram os subsídios, a isenção de impostos, blablablá. E quem ganha com cinema é profissional de imagem. R$ 8 mil, por semana, para um diretor de arte. Escritor não é diretor de arte.

“E, agora? Devo me jogar da ponte?” Não, não deve; mas deve olhar os dois lados da questão. Por causa da internet (eu não disse “por culpa”), temos cada vez mais escrevinhadores. Inflacionou o mercado. É natural que escrever – que já não valia nada – agora valha menos do que nada. Os escritores vão ter de pagar pra publicar. Aliás, já está acontecendo. Vocês são escritores da Geração 90, vocês sabem. Quantos não tiveram de editar com dinheiro do próprio bolso para poder começar? Eu acho que – tirando quem tirou a sorte grande – todos tiveram de se (auto-)editar. Agora olhem para os empregadores de escrevinhadores como nós. Se você não aceitar colaborar a troco de nada (ou a troco de uma remuneração aviltante), numa revista ou num jornal, alguém vai aceitar. A oferta é enorme. Cinema, mesma coisa. O resto, mesma coisa (tradução, mesma coisa). E quanto mais blogs, e quanto mais ferramentas de publicação, pior. Mais escrevinhadores passando fome. É uma tendência que não dá pra mudar.

Aí os escritores que já partiram pro tudo ou nada (independentemente da sua qualidade literária) chegam a essas mesmas conclusões e começam a se desesperar. Apelam então. Exigem desvio de impostos, ou alíquotas, para um Movimento que vai – em princípio – lhes garantir maneiras de se sustentar. Ou seja: mais uma vez, eles não querem resolver seus problemas próprios, mas querem que o governo – ou o mercado editorial, mediante uma taxa – resolva (ou facilite o seu lado). Nada contra palestras e circuitos literários, e oficinas, e colóquios, e o escambau, mas isso não resolve. É que nem acreditar que o Fome Zero resolve o problema da fome. Não resolve. É artificial. Amanhã, o governo muda, as taxas mudam, baixam uma portaria, e voltamos à aridez do cinema da era Collor. Não adianta se pendurar no estado, não adianta querer impor – à força – um número crescente de escritores, ao mercado (e ao público), que o Brasil (ou qualquer país) não comporta.

As soluções – se é que elas existem – são as mesmas e não são de agora. Educação, leitura, livros baratos, poder aquisitivo, cultura, hábito, bons escritores. O melhor que o escritor pode fazer agora é escrever o melhor que pode, e esperar. Que venha uma nova geração. Que venham novos leitores. (A geração internet, quem sabe?) Que o Brasil avance. Que o mercado editorial se desenvolva… O caminho é o mesmo em todo lugar.

E, óbvio, a maioria dos “escritores” que estamos vendo aí hoje vai “rodar”. É a lei da selva. É a seleção natural. Sobram os melhores. Não adianta impor cotas, não adianta querer sustentar uma casta se a mesma sociedade – em que se circunscreve essa casta – não parece, naturalmente, inclinada a sustentá-la. Sem mencionar um simples fato: que critérios vamos adotar? Os fundadores do Movimento Literatura Urgente têm prerrogativa na hora de administrar (e de ministrar) as verbas? É triste, mas, mais uma vez, os escritores brasileiros estão deixando de se envolver com literatura para se envolver com política. Não podem querer transmitir, para a sociedade, o ônus de uma escolha pessoal. Uma escolha problemática.

***

18.05.07: Publicar em papel? Pra quê?

Julio Daio Borges

Nove entre dez escrevinhadores que me aparecem, desejam, ardentemente, publicar em livro. Não sou editor de livros, sou editor de internet, mas pressinto que – na maioria dos casos – o meu site é visto como um ritual de passagem para finalmente, um dia, estrear em livro. Continua como uma das mais fortes ilusões, mesmo nos dias de hoje. Aqui, eu pretendo demonstrar, contudo, que publicar em livro pode ser – como aliás é, na maior parte das vezes – uma tremenda de uma fria. E por uma razão bastante simples: muito do que se espera de um livro com o próprio nome na capa, a internet já oferece, de graça, para estreantes na arte da escrita.

É mais fácil, em termos de raciocínio – e para não dizerem que eu generalizo – tomar o meu caso, nos verdes anos em que eu ainda escrevia. Eu pegava um livro do Rubem Fonseca, por exemplo. Olhava a capa, virava, apalpava, apreciava a lombada. Naquela época – os anos 90 –, os livros da Companhia das Letras eram tão incomparavelmente mais bonitos que todo mundo queria publicar por ela. (Ainda querem, eu sei…) Eu escrevia mas, provavelmente, não queria fazer literatura – eu queria publicar. Ter meu nome nas estantes. Ir ao Jô Soares e impressionar o mesmo jovem da minha idade que, de repente, entrando numa livraria, se aventuraria a comprar um livro. Eu não sabia nada da vida dos escritores. Eu não tinha nenhuma noção de como funcionava o mercado editorial. Mas eu me achava bom, acreditava, claro, que merecia ser (re)conhecido – e publicar, então, era meu objetivo.

Os jovens escrevinhadores, de lá pra cá, não mudaram muito. A diferença é que, além do Rubem Fonseca, podem, agora, lamber com os olhos os livros de escritores estreantes – tão ruins ou piores do que seu potencial público leitor. De modo que é bastante freqüente a pergunta: “Se até esse sujeito publica, por que eu não posso (também publicar)?”. Pode. Não custa tão caro; algumas editoras até se dispõem a fazê-lo… (traindo, naturalmente, sua função primordial de “editar”). A questão é que, depois de publicar, não acontece nada. Não acontece nada do que você, jovem escrevinhador, imaginava que fosse acontecer. Pergunte para os blogueiros-escritores. Eles estão disponíveis aí na internet, no e-mail. Os livros fizeram deles, autores, mais conhecidos do que já eram com seus blogs? A resposta é: não. A resposta é: existem, atualmente, blogueiros mais famosos do que autores de livros lançados aos montes no mercado editorial.

Vamos agora ver onde está o erro de quem almeja publicar em livro. Em primeiro lugar – apesar da quantidade de livros de novatos que você encontra –, o autor novo é considerado um “mico” pelos profissionais do mercado. Pergunte a qualquer agente literário. Pergunte a qualquer livreiro. Autores novos chegam semi-analfabetos, com seus originais, às editoras; algumas os lançam mas, depois, não conseguem nem distribuir; afinal, ninguém os conhece, nenhuma livraria quer… E é igual na mídia: neste mundo de autores de best-sellers que publicam todo ano (nacionais e estrangeiros), e das reedições infinitas (e traduções novas – a moda agora são os autores russos), não sobra espaço para a divulgação de estreantes. E os livros deles são ruins! Muito comumente, os autores pagam para publicar – e o editor termina por se eximir da sua única obrigação (editar, mais uma vez). “O leitor que julgue”, dizem. Coitado do leitor: tem de arcar com quase todo o prejuízo sozinho.

Seguindo essa cadeia de premissas: o dono da livraria não pega para vender (porque sabe que não vende), então ninguém vê exposto, portanto ninguém compra; o jornalista não pega para ler (porque, quando tenta, estatisticamente, não consegue avançar), assim ninguém fica sabendo e, de novo, ninguém compra. Resultado: o autor estreante não alcança seus potenciais leitores; termina menos conhecido – e, com certeza, mais pobre – do que antes. Ah, eu sei: você pode ter uma idéia genial, que ninguém ainda teve; convencer, ao mesmo tempo, o editor, o livreiro, o divulgador e o leitor. E vai ser, óbvio, um sucesso estrondoso. Mas você se esqueceu? Você é um autor novo! Para todos os efeitos, ninguém vai olhar para a sua cara. Os editores estão cansados dos originais sem qualidade que recebem de desconhecidos todos os dias; os livreiros estão escaldados por ter de pagar a conta das pequenas editoras falidas; o resenhista não tem mais paciência para as primeiras páginas que não o convencem da leitura; e os leitores, por causa de tudo isso, não vão chegar a saber que você existe (você e seu livro).

Qual a solução? Se matar? Não, ainda… Desde os anos 90, existe um negócio chamado internet (não sei se você sabe…). E desde os anos 2000, ou desde antes, existe um negócio chamado blog. O autor, qual seja, não precisa mais esperar por um editor, para ter seus escritos publicados. Nem precisa de alguém para distribuir, para divulgar. Só precisa ter leitores; ou seja, como qualquer escritor (publicado ou não), precisa ir conquistando leitores aos poucos. E esse é hoje o verdadeiro teste para dizer se um autor é bom ou não (se quiserem, publicável ou não): a audiência on-line. Na internet, no blog, ninguém está olhando para a embalagem que envolve seus escritos; ninguém está ligando para o local onde sua obra foi exposta. Se você for bom, você vai ter leitores, ponto. (Que é o que interessa, no final das contas.)

Mais uma coisinha: os leitores da internet, os leitores de hoje, não estão acostumados a ler “contos”, “novelas”, “romances” (seja menos pretensioso…). Os internautas – o grosso do potencial público leitor – estão voltando a ler aos poucos. Então não me venha com contos que “experimentam” com a linguagem, nem com romances desestruturados e com centenas de páginas. Escreva para a internet; a internet é o grande laboratório hoje. E os feedbacks vêm na hora: você não tem de esperar o leitor se convencer a procurar o livro, comprar, ler inteiro, para, só assim, gostar ou não. É muito difícil, custa dinheiro e – vamos admitir – você é um autor novo: você ainda não é suficientemente importante para ele, leitor, a ponto de justificar todo esse dispêndio de energia e tempo. Seja franco: você compraria um livro de um autor desconhecido? E, se ganhasse de presente, você leria? Não tenha vergonha de admitir, eu também não faria nenhuma das duas coisas em princípio. Agora se me mandassem um link para um blog, – como você – eu leria. São muitos blogs, sim, mas eu tento ler. Agora, os livros…

Conheço um blogueiro que é muito mais conhecido do que seus livros de títulos horríveis. E ele é um blogueiro tão bom – tão, assustadoramente, bom – que ninguém tem coragem de dizer para ele que os seus livros são ruins. Então ele insiste; e, de tempos em tempos, anuncia que vai largar esse negócio de blog, que ele não quer envelhecer blogando, que ele é, acima de tudo, um escritor (!). Evidentemente, não garanto que, se você for um blogueiro competente, você vá publicar, como quer, um livro em papel. Mas vai ficar mais perto do que as pessoas querem ler hoje; não vai ter de esperar anos, ou a vida inteira até, para constatar que seus livros são uma porcaria. Ambições literárias são saudáveis para quem escreve, mas publicar um livro não pode ser o único fim hoje. Publicar, como diz o clichê, é tornar público – e, nesse sentido, a internet vai muito mais longe do que o livro. Pense nisso.