A Ana V., que já trabalhou no mercado editorial, escreveu um excelente texto sobre essa questão de publicar em grandes editoras e o que elas podem fazer pelo escritor. Vale a pena ler. Em um dado momento, ela pergunta:
Acho curioso que tanta gente boa tenha tanta vontade de ser editado por uma dessas ditas grandes casas editoriais. Porque, pela minha experiência, isso não ajuda em nada. Não sei se tem a ver com um desejo muito forte de reconhecimento, de ser notado pelo meio editorial, supostamente por especialistas (nhé!, duplo nhé!). Mas rola esse fetiche da distruibuição nacional, de ter os livros expostos em livrarias, essas coisas que não passam disso mesmo: fetiches. O resultado prático disso é o que vocês já podem imaginar: nenhum. (…) Então eu queria entender melhor por que tantos autores-blogueiros, por exemplo, gostariam tanto de ter os seus livros publicados por uma editora grande. Em que isso contribui, exatamente?
E, como autor-blogueiro, respondo: ora, capital cultural. Só isso.
Capital Cultural, Percepção e Reconhecimento
Concordo com rigorosamente tudo no texto da Ana: quem tem ilusões de que sua vida vai mudar depois de ser publicado pela Cia das Letras é um ingênuo. Você vai ser o menor peixe de um marzão enorme, não vai ter prioridade nenhuma lá dentro, vai ser mais um nome do release, vai ter sua tiragem mínima pulverizada por livrarias que só vão comprar o livro porque veio no pacote, se houver divulgação na mídia vai ser porque você correu atrás, e em poucos meses seu livro provavelmente estará esquecido.
A única diferença mesmo, e que não é pequena, é de percepção. Depois de ser publicado pela Cia das Letras você vira, bem, um autor publicado pelo Cia das Letras. Não é grandes coisa, mas é um primeiro passo, e sem ele, não existem os passos subsequentes.
Se você não entende a diferença que isso faz então você não sabe como o mundo funciona. Já senti essa diferença quando passei a escrever pra Tribuna da Imprensa: agora, eu era “colunista de grande jornal diário do Rio de Janeiro”, “o jornal do Lacerda”, “o jornal que derrubou o Getúlio”, etc. Eu não acho minha coluninha nada demais, mas mudou o jeito como muita gente me trata, por incrível que pareça.
A Ana Maria Gonçalves auto-publicou seu primeiro romance e vendeu por seu blog – exatamente como eu e Bia fizemos com a Os Vira-Lata. O segundo livro, Um Defeito de Cor, ela já lançou pela Record. Hoje em dia, ninguém mais chama a Ana de blogueira. Ela é escritora – como, aliás, sempre foi.
Tem gente que diz que sou superficial, vaidoso, que estou perseguindo um “rótulo”, que não imaginava que “alguém livre como eu” se preocupasse com “essas coisas”. A própria Ana V. especula que a vontade de ser publicado por grandes editoras tenha a ver “com um desejo muito forte de reconhecimento”, e eu fico estranhando o tom de crítica. Qual é o problema?
Reconhecimento não é fama. Reconhecimento é ser reconhecido como sendo quem você realmente é. Reconhecimento é o economista não ser tratado, visto ou percebido como contador, mas como economista. Quem estudou por seis anos pra ser médico não gosta de ser chamado de enfermeiro.
A Questão da Grana
Em julho, eu vendi 33 cópias do meu livro de crônicas cubanas, Radical Rebelde Revolucionário. O preço de capa é R$20 e eu recebo 90%, ou seja, R$18: o resto é do Branco. Ou seja, por esses 33 livros, eu ganhei R$594, líquidos e livres de impostos.
Digamos que eu tivesse publicado o livro por editora tradicional, que ele fosse vendido nas livrarias pelos mesmos R$20, que eu recebesse os 5% do preço de capa garantidos por lei e que minha agente ficasse com os seus 20% de praxe, eu receberia apenas R$0,80 por exemplar. Ou seja, ao invés de R$600 receberia R$26 pelos mesmos 33 exemplares vendidos. Para ganhar os mesmos R$600 publicando por editora tradicional, eu precisaria vender 750 exemplares.
E eu me pergunto: será que algum novo autor publicado por editora tradicional vende isso? (Os títulos da Livros do Mal, por exemplo, tinham tiragem de 600 exemplares.)
33 exemplares vendidos em um mês parece pouco, mas os R$600 são bem verdadeiros e fazem um peso gostoso aqui no meu bolso.
A Internet Coloca o Mercado Editorial em Perspectiva
Hoje, estou com o meu romance sendo avaliado por grandes editoras. Enquanto isso, lancei três livros para venda direta aos leitores, de gêneros menos comerciais, contos, crônicas e impressões de viagem. Eu ficaria feliz se tivesse uns dois ou três títulos em catálogo, para fins de reconhecimento, e depois outros tantos, menos ambiciosos, para vender diretamente pelo blog.
Para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu mais leitores e mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares – outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, não tenho capital cultural algum: ainda não sou escritor, sou “blogueiro”.
Não estou dizendo que as uvas estão verdes, não estou reclamando de nada, não acho que é injustiça uma editora não investir em um autor desconhecido que dificilmente dará lucro. Eu quero sim passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo.
A única diferença é que minha experiência na internet me fez ver que todo esse processo tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.

Pessoal,
Seguem uns fragmentos de meu romance Iulana, publicado este ano pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (www.edufal.com.br).
Este romance, pra sair da gaveta, teve de vencer um concurso (Alagoas em Cena 2006), pois era muito “inconvencional”. O meu primeiro livro, O Eunuco, por ser escatológico, também quase não saiu da gaveta. Bem, quem quer radicaizar em litertura, tem que ter emprego ou suportar fome que nem um asceta! E, gandes editoras, nem pensar… Mas, quem se importa?
Saudações,
Pablo de Carvalho (pablo.de.carvalho@hotmail.com)
“…Perdida, esboçada num universo imaginário onde os sentidos se confundem com as formas e movimentos de luzes foscas evidenciam cores sentidas, sentimentos coloridos; cantando feito cantam as baleias que peregrinam como espíritos escuros no azul eternamente além, a lembrança de Iulana tomava os espaços vazios da alma de Nanan, em visões que iam e vinham, instante a instante, mais definidas a cada aparição, e a pouco e pouco ele já conseguia distinguir suas mãos dançantes, sua silhueta esguia, desfeita de vez em quando em passos circulares, como fumaça espalhada ao sabor do vento, contra um fundo de intenso mistério, de onde lhe vinham as vozes aflitas de gerações e gerações de homens humilhados, castrados, roendo suas próprias carnes à procura de seus sexos devorados, rebatendo eternamente nas garras ferinas de umas mulheres de olhos de vidro… Essas premonições, essas alucinações, essas construções do espírito lhe caíam dentro numa braçada de medo, fazendo-o estremecer e enxergar no norte uma dor maior…”
“…Balbino adiantou-se e lhe riscou o flanco, armando-se depois em posição defensiva. O touro espantou-se, recuou ainda mais e, trêmulo, ajoelhou-se sobre as patas dianteiras, erguendo ao toureiro um olhar infantil. Filetes de sangue lhe escorreram serenamente sobre os pelos brancos e caíram no chão, transformados em pétalas vermelhas. A platéia alardeou. Balbino não cria no que se passava. Voltou a sangrar a fera e a armar-se, agora num corte mais fundo. O touro contraiu os músculos, engoliu a dor e permaneceu humildemente genuflexo. No talho beiçudo entre as carnes se formou uma poça de sangue que, coisa estranha, coagulou-se instantaneamente em pequeninos buquês de rosas. A platéia, comovida, começou a clamar em favor do touro. Balbino rangeu dentes, lançou a manta fora e atirou-se às carnes do animal. Decepou-lhe a orelha, vazou-lhe o pescoço, perfurou-lhe as vísceras, cindiu-lhe os músculos. O sangue jorrava em cascatas de rosas, salpicando pétalas, vomitando buquês caudalosos às alturas, como grandes nuvens vermelhas. Uma neblina perfumada se expandiu por toda a arena. Os espectadores se prostravam em joelhos e rogavam por misericórdia, misericórdia, misericórdia! Mas Balbino entrara em transe. Golpeou o touro doidamente até que só restasse uma carcaça de flores em tono de si. Não tendo mais o que contundir, cravou a espada nas carnes do chão, abriu os braços em cruz e gritou sua alma, sua alma nua, sua alma exasperada…”
Caros colegas,
Eu sou português, um País de grande cultura literária, de grande tradição e com vários escritores premiados, inclusive com um Prémio Nobel da Literatura, como é o caso de José Saramago. O Brasil há muito que também demonstra ser um País literário, ao contrário do que muitos apregoam. O problema, o cerne da questão, é que ambas as Nações estão a padecer do mesmo mal, ou seja, os escritores em inicio de carreira têm dificuldade em publicar os seus trabalhos, hoje em dia (e falo pelo exemplo português) as editoras preferem publicar literatura fácil (veja-se o caso dos vários livros biográficos de jogadores de futebol, eu pergunto, que tem eles de interessante?!)ou então best-sellers, como o vosso Paulo Coelho ou os nossos Saramago e Lobo Antunes. Devo contudo frisar que poucos foram os grandes escritores, os consagrados, que tiveram um inicio fácil, muitos deles só publicaram a sua primeira obra já com uma idade avançada, não é fácil esperar viver da literatura, pois escrever um livro leva tempo, publica-lo leva ainda mais e ás vezes as oportunidades não aparecem. Neste momento estou a acabar o meu primeiro trabalho, sonho com isto desde miudo, é algo que desejo até ao âmago do meu ser, quando escrevo sinto-me bem comigo próprio, sou feliz! Tenho medos, dúvidas, penso muitas vezes se irei conseguir publicar o meu trabalho, mas jamais baixarei os braços! Sem os livros a humanidade não seria nada, sem o conhecimento e as emoções que eles transmitem seriamos apenas um bando de macacos à procura de um galho para martelar o peito e gritar bem alto – “Sou um completo ignorante!” – que diga-se, é o que está a acontecer, o paradoxo de haver cada vez mais livros, mais autores contrapõe com o facto de cada vez se ler menos. Admiro muito o Brasil, as vossas origens, a vossa alegria natural de viver, independentemente dos problemas que possam ter, e digo-vos amigos, não desistam nunca do vosso sonho, lutem por ele, pois só ele vos fará feliz se realmente for verdadeiro. Não me importam as críticas quando tentam apenas ferir, porque têm inveja do nosso génio, da nossa capacidade de sonhar, da nossa liberdade de espirito, pois, quer se queira quer não, um verdadeiro escritor não é apenas mais um, é o contador de sonhos, o mensageiro de emoções, aquele que pelas palavras nos faz sentir coisas tremendas. Sempre li muito desde criança, tenho uma vasta biblioteca, e a familia também ajudou, pois todos em casa gostavam de literatura, sei o que faço, sei que tenho talento e sei que vou chegar ao topo, acredito nisso tal como acredito que tenho de comer todos os dias para sobreviver, se será esta ou aquela editora a publicar as minhas obras, sinceramente pouco me importa, eu é que sou importante, eu é que sou o escritor que quer chegar aos quatro cantos do Mundo, e acreditem, daqui a uns anos vão ouvir falar de mim. Coragem colegas, nunca desistam!
Boa tarde,
Sou uma autora desconhecida. Já tenho uma obra escrita. Gostaria que essa obra chegasse ao pessoal da Companhia das Letras. Como faço?
Já tem uma editora interessada, mas prefiro a Cia das Letras.
Estudo na PUC/SP. Passei a minha obra “Uma Cabaça, História de Vida para o Departamento de Artes que, deu um parecer muito interessante sobre a minha obra que é composta de uma nova linguagem.
A cia de Letras tem muita credibilidade. Isso dá segurança ao novo autor.
Obrigada,
Vilma C. Damasceno Sobhie