13.08.07: Literatura (inter)dependente

Alexandre Heredia

E aí, qual é a melhor saída para o escritor iniciante aqui nestas terras tupinambás? Será bater de porta em porta em editoras que normalmente os ignoram? Será publicar por conta própria, vendendo carro, apartamento e passando fome? Ou será que é disponibilizar o trabalho de graça na internet?

O assunto já deu pano pra manga pela blogosfera. A Olivia Maia, que já lançou um livro por uma editora grande, deixou sua opinião e destilou sua frustração em um pôste em seu blogue e em uma entrevista para o Digestivo Cultural. O Biajoni, que disponibilizou seu primeiro livro de graça em PDF e lançou o segundo por uma editora independente também deu seus pitacos a respeito. O Branco Leone, que é editor d’Os Viralata, também. Assim como o Valter Ferraz. Enfim, a discussão está aberta.

O ponto é simples: Vale a pena publicar “formalmente” no Brasil? Há diversas maneiras de analisar isso. Como tenho alguma experiência no assunto vou deixar minha singela opinião.

Em primeiro lugar faço questão de descartar completamente a produção por conta própria, nas famigeradas editoras “sob demanda”. Se quer saber meus motivos leia este pôste aqui.

Já disponibilizar seu trabalho de graça na internet eu considero uma saída interessante. Corajosa até. Claro, há o risco de você ver sua chance de um sucesso financeiro ser jogada pelo ralo em nome de uma atitude “rebelde” e “transgressora”. Mas é uma saída. Aliás foi essa uma das maneira que encontrei para sair do anonimato literário. Quem acompanha minha carreira sabe que tudo começou com uma publicação independente e gratuita, o hoje finado NecroZine. Graças à base de leitores angariada com essa iniciativa tivemos o suporte de uma editora para o lançamento da Coleção Necrópole, que está a caminho de seu terceiro volume.

Agora você me pergunta: o que valeu mais a pena, o zine ou o livro? Não há como dissociar um do outro. O zine foi um sucesso. Seu último número teve uma tiragem esgotada de 2.000 exemplares. Isso sem contar os downloads dos PDF’s. O livro também foi um sucesso editorial. Vendemos no Brasil inteiro. Houve algum bafafá na mídia. Nada explosivo, mas o suficiente para valer a pena todo o trabalho (que não foi pouco, acreditem).

Claro que monetariamente falando este sucesso não foi tão grande. Não deu pra abandonar o emprego. Aliás, nem pra comprar muita coisa, pra falar a verdade. No máximo pagar algumas dívidas antigas. Mas nenhum dos autores passou fome por conta do livro, muito pelo contrário. E fomos lidos. Bastante.

Então, qual vantagem Maria leva? Se não encheu o bolso de dindin, por que perder tempo? Não é mais fácil simplesmente jogar na internet? Não gasta, não ganha e é lido. Tudo resolvido, não é?

Quase. Por mais que me doa assumir isso, o livro “físico” possui uma vantagem que o “digital” ainda não tem: Credibilidade.

Os autores “independentes” podem me apedrejar agora. Com todo o direito. Mas eu explico.

Não tem jeito, pessoal. Livro na estante da livraria tem outro status. O autor não é mais um bolchevique anarquista escavando romanticamente trincheiras na periferia do mercado. Ele se torna um Autor (com “A” maiúsculo mesmo). Ele tem o aval de uma empresa que, no final das contas, viu em seu trabalho uma chance de lucro. É como um “selo de qualidade” que, por mais triste que essa constatação seja, os leitores/consumidores valorizam. O cabra vai ter que botar a mão no bolso pra ler o seu trabalho, não vai simplesmente baixá-lo, guardar num canto obscuro do agadê e esquecer. Se ele comprar vai ler. E não vai ler por obrigação de amizade. Vai ler porque (pasmem!) ele se interessou pelo assunto abordado.

Assim, minha opinião a respeito das editoras tradicionais é a mesma da TV por assinatura: ruim com elas, muito pior sem elas. Doa a quem doer.

O que nós autores temos que perceber de uma vez é que não é o caso de escolher entre uma mídia e outra. A resposta está em somar as vantagens de ambas em benefício próprio. Pela primeira vez na histórioa os escritores têm disponível uma janela imensa para expor seus trabalhos, ser notado. Mas não dá pra ignorar o mercado antigo, do papel e tinta. Isso pode mudar no futuro (e eu espero que mude!), mas não dá pra viver de romantismo. O bom idealista é o que sabe que para se ir de A para B é preciso muito trabalho. Não adianta querer revolucionar do mesmo modo que se tira um bandêide. Como disse o personagem de Billy Crystal em “Meu Querido Bob”: passinhos de bebê.

Com paciência a gente chega lá.

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