Arquivo para Junho, 2008

02.08.07: O tira que invadiu a livraria

Conheça a história do herói Inspetor Tavares, que nunca achou uma editora que o quisesse, mas conseguiu cavar um lugarzinho na estante mais grã-fina da cidade

Jotabê Medeiros

É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um livro editado e distribuído pelo próprio autor entrar numa das modernas redes de livrarias de São Paulo. Mas às vezes, o zelador esquece a porteira aberta e um ou outro penetra invade.

Se o leitor passar esta semana pela portentosa Livraria da Vila da Alameda Lorena, nos Jardins (onde, no andar superior, um cafezinho custa R$ 2,50), vai encontrar na estante mais nobre, no térreo, um modesto livrinho policial em formato de bolso encarando tubarões da literatura mundial.

Trata-se de Inspetor Tavares – Cada Caso É um Caso, de Waldemar Neves (pseudônimo do escritor, ator, dramaturgo e cineasta Felipe Sant’Angelo, de 26 anos). Custa R$ 16. Lembra aquele caso do estudante que expôs, durante 2 meses, um quadro de sua autoria durante a 25.ª Bienal de São Paulo, em 2002, ao lado de Brodsky, Cruz-Diez, Carmela Gross, Carlos Fajardo.

Chama atenção o fato de uma edição de autor conseguir tal feito – em parte pela própria natureza das livrarias atuais, que chegam a cobrar das editoras para que um livro ocupe espaço nobre em suas preciosas estantes e vitrines.

E em que pé anda a famosa edição do autor? Grandes escritores do País, como João Cabral de Melo Neto, começaram na literatura dessa forma – João Cabral bancou do próprio bolso a primeira edição de Pedra de Sono, no Recife, em 1942. O mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke e o libanês (radicado em Santa Catarina) Salim Miguel só tardiamente foram abraçados pelas editoras.

Um dos destaques da poesia mineira atual, Ricardo Aleixo só publica à própria custa. “Organizei minha vida cotidiana a partir de uma premissa não capitalista e não consumista”, diz Aleixo. “Vivo com pouco, mas vivo bem”, afirma.

“A edição do autor é interessante por diferentes razões: você mesmo pode fazer, como um livro-objeto, a visualidade do seu livro; faz sem preocupação com as leis do mercado; também não precisa passar pelo crivo de um editor ou de padrinhos; e elimina o distribuidor”, lembra o poeta Chacal, que, a partir dos anos 1970, editou na raça a maior parte de sua obra.

O Inspetor Tavares, abrigado alguns metros atrás da nova e imponente pilha de Harry Potter and The Deathly Hallows, não quer sair dali tão cedo. A menos que o despejem. “Fui às livrarias com a cara e a coragem”, diz o escritor Felipe Sant’Angelo, que editou 150 exemplares de seu livro de estréia com o personagem Inspetor Tavares.

“Deixei o livro na livraria do Centro Cultural, na Mercearia São Pedro e na Livraria da Vila da Vila Madalena. Como foi parar nos Jardins eu não sei, mas fico feliz que alguém chegou até ele”, diz o autor.

04.09.06: Escritores desiludidos

Miguel Conde

Chegaram alguns e-mails aqui no caderno comentando a reportagem desse sábado sobre a ‘pilha de ilusões’. A matéria mostra como funciona nas editoras o processo de avaliação dos originais que chegam pelo correio, sem que ninguém solicite ou recomende. São de 15 a 30 originais por semana, por volta de mil por ano, mas, apesar das esperanças das pessoas que os enviam, esses textos quase nunca são publicados. Nos últimos anos, as editoras consultadas para a reportagem publicaram zero ou quase zero a partir do que chegou pelo correio. A exceção é a Rocco, que publica cinco livros por ano com base nesse material.
Muita gente levou um susto com o tamanho do descompasso entre suas expectativas e a realidade. Alguns escritores ficaram revoltados e desanimados com o pouco interesse dos editores pelos originais não solicitados.
O fato é que um novo autor tentando publicar seu primeiro livro dificilmente conseguirá entrar numa grande editora sem construir, antes, algum tipo de reputação, ou sem alguma recomendação que leve o editor a olhar ser livro com mais atenção. Como dizem os próprios editores, mesmo bons livros bons de gente nova deixam de ser publicados, por critérios comerciais, ou porque o livro é considerado bom mas não o bastante para substituir outros que já estavam no cronograma de impressão.
Das revelações surgidas nos últimos anos na literatura brasileira, poucas começaram por grandes editoras. Não é à toa que novos escritores têm buscado outros meios de publicação. Em alguns casos, criando editoras e bancando as edições, ou fazendo a venda do livro por internet.
O que se vê pelas opiniões que chegaram aqui é que o assunto afeta profundamente quem busca um editor para seu livro.
Abaixo, a opinião de um autor que escreveu para cá e prefere não ser identificado.

As editoras não têm nenhuma política definida para descobrir novos autores. Não prestam atenção nos movimentos de literatura fora do mercado e nem sequer conseguem ler o que lhes chega na mesa de trabalho. Não sei se falta interesse ou estrutura para isso. Mas minha impressão é que falta mesmo vontade, garra e até talento.
O grande problema é que no Brasil não existem boas editoras médias, voltadas para ficção nacional. Ou são as grandes, que lançam seus 5, 10, 15, 30 livros por mês ou as pequenas em que alguns autores até pagam para publicar.
Até o cara escrever seu terceiro livro e a Record, Rocco etc publicar, ele fica relegado ao anonimato das pequenas, em que o livro é até comentado, mas não é encontrado nas livrarias nem do Rio, imagina do resto do Brasil.